A SALA DE ÂMBAR

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24/01/2010 por Luiz Nazario

Em 1992, uma exposição vinda da Rússia, percorrendo toda a Europa, exibiu, pela primeira vez, uma rara coleção de peças de âmbar: caixas, porta-jóias, relicários, adornos, enfeites preciosos esculpidos na resina fossilizada de coníferas que cresceram há 55 milhões de anos. O maior depósito daquela preciosa resina situa-se nas encostas da embocadura do Vístula, nas proximidades da cidade de Königsberg. Polido, o âmbar adquire todos os tons de amarelo, do esbranquiçado ao marron avermelhado.

Em 1642, a exploração do âmbar e sua manufatura foram reguladas pela chamada Prerrogativa do Âmbar, um privilégio que Frederico Guilherme obteve dos reis da Prússia, e que foi desde então herdado por seus descendentes. Durante os séculos XVII-XVIII, os mais belos trabalhos em âmbar, em geral porta-jóias, provieram de Danzig, destinados a presentear a Corte da Prússia. O mais importante destes presentes foi o Bernsteinzimmer – a Sala de Âmbar –, construído no Castelo de Charlottenburg em 1701, por ordem de Frederico I, provavelmente desenhado pelo grande escultor e arquiteto Andreas Schlüter, para ser executado pelo dinamarquês Gottfried Wolffram e por Ernst Schacht e Gottfried Turau, especialistas de Danzig.

Em 1716, Frederico Guilherme I presenteou a Sala de Âmbar ao Czar Pedro I, selando a aliança russo-prussiana. O cômodo foi transportado para a Rússia e instalado no gabinete do velho Palácio de Inverno, tal como havia sido criado em Berlim. Em 1755, a Sala de Âmbar foi transferida para Zarskoje Selo, hoje Puschkin, e integrada ao hall de recepção do Palácio de Catarina. Para adequá-la ao espaço ampliado sem alterar suas características originais, o arquiteto Bartolomeo Francesco Rastrelli acrescentou-lhe espelhos, num trabalho de adaptação que levou oito anos. A Sala era composta por 1.765 peças de âmbar, uma coleção sem paralelo no mundo. Lajes, incrustações, móveis, objetos, lustres, pisos, adornos, tudo era feito de âmbar, em tons de creme, amarelo-leitoso e castanho avermelhado, com acabamentos de madeira e ouro.

No decorrer da Segunda Guerra, antes mesmo da União Soviética ser invadida pela Wehrmacht, temendo-se bombardeios, a Sala de Âmbar foi inteiramente desmontada e toda sua coleção escondida em algum lugar próximo a Leningrado. Quando os nazistas ocuparam Puschkin, as peças foram levadas para o Castelo de Königsberg para serem aí reinstaladas. Mas pouco antes do castelo ser bombardeado, a Sala de Âmbar voltou a ser escondida, em galerias subterrâneas. Desde então, as peças desmontadas nunca mais foram encontradas.

O destino da Sala de Âmbar permanece até hoje ignorado. Teria sido destruída pelos bombardeios? Teriam os homens que transportaram suas peças sucumbido antes de poder revelar onde as haviam escondido? Ou teria sido a Sala de Âmbar, na miséria que grassou após a guerra, vendida, peça por peça, a colecionadores particulares? Neste caso, há esperanças de que outras partes do tesouro, além daquelas reunidas na exposição itinerante, de obscura procedência, sejam ainda encontradas. Em 1979, o Conselho do Gabinete da República Russa decidiu construir uma réplica da Sala de Âmbar segundo os planos de Rastrelli e com base numa foto tirada por volta de 1912 – a única imagem existente da magnífica sala de dez metros quadrados, com quatro metros e meio de altura, que se desvaneceu sem deixar traços.

É a visão de um salão palaciano orgulhoso de sua unicidade, que insiste em permanecer suspenso no tempo e no espaço, sem ter onde assentar seus fundamentos, existindo apenas na imagem de um de seus instantes. É a forma definitiva da Sala de Âmbar que a História encarregou-se de criar como se fora seu destino. Exuberante em sua perfeita imaterialidade, a Sala de Âmbar não mais feita de estuque, madeira e espelhos, carregada de pedras preciosas, como a que existiu outrora e como a que existe hoje, recriada a partir de sua imagem: na catástrofe da Segunda Guerra, um evento brusco e misterioso converteu a Sala de Âmbar na matéria mesma de que são feitos nossos sonhos.

[Imagem: A Sala de Âmbar, fotografia do cômodo original tirada por volta de 1912.]

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One thought on “A SALA DE ÂMBAR

  1. [...] A Sala de Âmbar é um pequeno relato sobre uma fascinante exposição que visitei na Alemanha, com peças deste salão palaciano simultaneamente histórico e mítico. Foi escrito em 1993, bem antes da recente febre de publicações sobre o tema, com a novela histórica O Salão de Âmbar (2005), de Matilde Asensi; a alentada pesquisa A Sala de Âmbar (2006), de Adrian Levy e Catherine Scott-Clark; o romance de suspense A Sala de Âmbar (2006), de Steve Berry. E, evidentemente, antes de sua miraculosa recriação física, como num sonho materializado, centímetro por centímetro, que veio à luz em 2007.   [...]

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