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	<title>MIRAGENS</title>
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	<description>CONTOS DE LUIZ NAZARIO</description>
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		<title>SÓ OS FORTES SOBREVIVEM</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Feb 2012 15:07:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[sensacionalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Na primeira classe do Boing 737 da Miami Airlines viajavam esportistas musculosos, executivos nababos e mulheres poderosas. Na terceira classe, encontravam-se pessoas comuns, mas bem de vida. O avião caiu no mar, num trágico acidente. Todos os tripulantes e passageiros morreram. Sobreviveu apenas um anão brasileiro, natural de Formiga, em Minas Gerais. Ele era bem [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luiznazarioescritor.wordpress.com&amp;blog=11625701&amp;post=175&amp;subd=luiznazarioescritor&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Na primeira classe do Boing 737 da Miami Airlines viajavam esportistas musculosos, executivos nababos e mulheres poderosas. Na terceira classe, encontravam-se pessoas comuns, mas bem de vida. O avião caiu no mar, num trágico acidente. Todos os tripulantes e passageiros morreram. Sobreviveu apenas um anão brasileiro, natural de Formiga, em Minas Gerais. Ele era bem pobre, fraco e adoentado. Viajava a convite do famoso Institut pour l’Épuration Génetique du Nanisme. Em Paris, ele seria transferido para um hospital, com tudo pago pelo instituto, para um tratamento genético experimental.</p>
<p style="text-align:justify;">Jair da Silva, o anão adoentado, era uma cobaia humana. Em seu desespero, ele havia se oferecido, por dinheiro, para experiências importantes que visavam extirpar do mundo a desgraça do nanismo. Assim, anões como ele nunca mais nasceriam, transmitindo seus genes malformados e defeituosos para possíveis descendentes. Sua sobrevivência no trágico acidente foi considerada uma piada de mau gosto contada pelo acaso. A imprensa explorou demasiado o tema, fazendo sensacionalismo barato com um fato que deveria, para o bem da ciência, passar batido. Os repórteres precisariam ter, pelo menos, evitado a manchete idiota: “Só os fortes sobrevivem.”</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/luiznazarioescritor.wordpress.com/175/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luiznazarioescritor.wordpress.com&amp;blog=11625701&amp;post=175&amp;subd=luiznazarioescritor&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>SOBRE O AUTOR</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 23:33:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[LUIZ NAZARIO nasceu em  São Paulo, em 1957. Graduado em História pela Universidade de São Paulo (1975-1979), colaborou, como crítico de cinema, em diversos veículos de comunicação, nomeadamente nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo; nas revistas Set e Isto É; nos periódicos Filme Cultura e Cultura VOZES. Com Mestrado (1982-1989) e Doutorado [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luiznazarioescritor.wordpress.com&amp;blog=11625701&amp;post=96&amp;subd=luiznazarioescritor&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/luiz-nazario-por-claudia-jussan.jpg"><span style="color:#000000;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-97" title="Luiz Nazario por Cláudia Jussan" src="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/luiz-nazario-por-claudia-jussan.jpg?w=203&#038;h=300" alt="" width="203" height="300" /></span></a></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">LUIZ NAZARIO nasceu em  São Paulo, em 1957. Graduado em História pela Universidade de São Paulo (1975-1979), colaborou, como crítico de cinema, em diversos veículos de comunicação, nomeadamente nos jornais <em>Folha de S. Paulo</em> e <em>O Estado de S. Paulo</em>; nas revistas <em>Set</em> e <em>Isto É</em>; nos periódicos <em>Filme Cultura</em> e <em>Cultura VOZES</em>.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Com Mestrado (1982-1989) e Doutorado (1989-1994) em História Social na Universidade de São Paulo, apresentou a dissertação <em>Autos-de-fé como espetáculos de massa</em> (1987) e a tese <em>Imaginários da destruição: O papel da imagem na preparação do Holocausto</em> (1994), ambas sob a orientação de Anita Novinsky.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Para a tese, pesquisou, sob a orientação de Michael Prinz, entre 1990 e 1993, como bolsista do DAAD e da CAPES, nos arquivos fílmicos de Berlim, Wiesbaden, Coblença, Frankfurt e Münster. Em 1993, acompanhou, a convite do Departamento de Educação e Cultura Judaicas da Organização Sionista Mundial no Brasil e com o patrocínio de Leon Feffer, em nome da Associação Universitária de Cultura Judaica, o seminário sobre o Holocausto no Museu Yad Vashem, em Jerusalém.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Organizou vários eventos, entre os quais a curadoria da mostra Cinema Mudo na Alemanha e na América Latina, do Instituto Goethe, no III Eurocine, apresentada em diversas cidades da América Latina e da Alemanha, entre 1995 e 1996. Entre 1994 e 1996, fez pós-doutorado sobre a imigração judaica alemã no Brasil, no Centro de Estudos Judaicos da USP, onde ministrou cursos sobre o cinema nazista e coordenou o <span style="color:#0000ff;"><a href="http://www.fflch.usp.br/dlo/cej/gpd/index.htm" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Grupo de Pesquisa da Discriminação (GPD)</span></a></span>. Desde 1995, colabora como relator para o Brasil no anuário <em><span style="color:#0000ff;"><a href="http://www.tau.ac.il/Anti-Semitism/annual-report.htm" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Anti-Semitism Worldwide</span></a></span></em>, da Tel Aviv University.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Desde 1996, é Professor de Cinema na Escola de Belas Artes da UFMG, onde exerceu o cargo de Chefe do Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema de 1998 a 2001. Desde 2001, coordena a Ophicina Digital, que realizou os projetos: <em><span style="color:#0000ff;"><a href="http://revista.fapemig.br/materia.php?id=47" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Animação Expressionista: Trilogia do Caos</span></a></span></em>; <em>Pier Paolo</em> <em>Pasolini: Vida e Obra</em>; <em><span style="color:#0000ff;"><a href="http://guaracyrodrigues.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Guará: O Criminoso Imaginário</span></a></span></em>; <span style="color:#0000ff;"><a href="http://www.ufmg.br/boletim/bol1454/" target="_blank"><span style="color:#0000ff;"><em>Filmoteca Mineira</em>: <em>Digitalização de Acervos Audiovisuais</em></span></a></span>. Desde 2002 é pesquisador bolsista do CNPq, desenvolvendo atualmente o projeto: <em>Cinema e Holocausto</em>; e vice-coordenador do <span style="color:#0000ff;"><a href="http://www.ufmg.br/nej/modules/content/" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ)</span></a> <span style="color:#000000;">da UFMG</span></span><span style="color:#000000;">, </span>desenvolvendo o subprojeto <em>Literatura e Cinema de Resistência e de Colaboração</em>.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Produziu os vídeos <em>Nunca houve mulher como Marlene</em> (1997, de Cauê Salles); <em>Sexo-verdade</em> (2000); <em>Desdobraduras</em> (2000); <em>Debate</em> (2001); <em>A flor do caos</em> (2001, Prêmio Projeto Experimental da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte); <em>Selenita Acusa!</em> (2001, Prêmio Estímulo da Associação Curta Minas / CEMIG); <em>Prisioneiros do Planeta Ornabi</em> (2003); <em>Filoctetes</em> (2006); <em>Azzurro </em>(2007).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Publicou o livro de poemas <em>Segredos</em> (Memória Gráfica, 2001) e diversos livros de ensaios, entre os quais <em>O cinema industrial americano</em> (Edição do Autor, 1981; Nova Stella, 1982); <em>Pasolini</em> (Brasiliense, 1982, 1982, 1983); <em>De Caligari a Lili Marlene</em> (Global, 1983); <em>Da natureza dos monstros</em> (Edição do Autor, 1983; Arte &amp; Ciência, 1998, edição ampliada); <em>As sombras móveis</em> (Editora da UFMG/mídia@rte, 1999); <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=9012218&amp;sid=20180716112122708372478181&amp;k5=1E71DA92&amp;uid=" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Autos-de-fé como espetáculos de massa</span></a></em> (Humanitas/EDUSP/FAPESP, 2005); <em><a href="http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_livros.asp?produto=15920" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Todos os corpos de Pasolini</span></a></em> (Perspectiva, 2007). Prefaciou a edição brasileira de <em>Saint-Genet, ator e mártir</em> (Vozes, 2002), de Jean-Paul Sartre. Organizou as coletâneas: <em><a href="http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_livros.asp?produto=8888" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Catálogo Filmoteca Mineira</span></a></em> (EBA, 2003); <em><a href="http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_livros.asp?produto=8892" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Os fazedores de golems</span></a></em> (com Lyslei Nascimento, FALE, 2004); <em><a href="http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_livros.asp?produto=9702" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">A cidade imaginária</span></a></em> (Perspectiva, 2004); <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/busca/busca.asp?palavra=Concep%E7%F5es+contempor%E2neas+da+arte&amp;tipo_pesq=titulo&amp;sid=20180716112122708372478181&amp;k5=1F24AAF2&amp;uid=&amp;limpa=0&amp;parceiro=TPAATR&amp;x=22&amp;y=7" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Concepções contemporâneas da arte</span></a></em> (com Patricia Franca, Editora da UFMG, 2006); <em>Estudos judaicos</em>: <em>Brasil</em> (com Lyslei Nascimento, FALE, 2007).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Colaborou para as coletâneas: <em>1000 Rastros Rápidos</em> (FALE, 1999), de Maurício Salles Vasconcelos e Haydée Ribeiro Coelho; <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=7013831&amp;sid=20180716112122708372478181&amp;k5=10936A48&amp;uid=" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Ensaios sobre a intolerância</span></a></em> (Humanitas/LEI, 2002), de Lina Gorenstein e Maria Luiza Tucci Carneiro; </span><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=670094&amp;sid=20180716112122708372478181&amp;k5=96023A&amp;uid=" target="_blank"><em><span style="color:#0000ff;">O Expressionismo</span></em></a><span style="color:#000000;"> (Perspectiva, 2002), de J. Guinsburg; <a href="http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_livros.asp?produto=8890" target="_blank"><em><span style="color:#0000ff;">O corpo em performance</span></em></a> (FALE, 2003), de Antonio Hildebrando, Lyslei Nascimento e Sara Rojo; <em>Estudos judaicos</em> (FALE, 2004), de Elcio Cornelsen e Lyslei Nascimento; <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=803828&amp;sid=20180716112122708372478181&amp;k5=1CFD1472&amp;uid=" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">O Pós-modernismo</span></a></em> (Perspectiva, 2004), de<em> </em>Ana Mae Barbosa e<em> </em>J. Guinsburg; <em><a href="http://www.palgrave.com/products/title.aspx?is=1403994919" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Cinema and the Swastika. The International Expansion of Third Reich Cinema</span></a> </em>(Palgrave Macmillan, 2007), de Roel Vande Winkel e David Welch; <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2260143&amp;sid=20180716112122708372478181&amp;k5=49A672&amp;uid=" target="_blank"><span style="color:#0000ff;"><em>Monstros e monstruosidades</em> <em>na literatura</em></span></a> (FALE, 2007), de Julio Jeha; <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=11020470&amp;sid=20180716112122708372478181&amp;k5=2B81C2A5&amp;uid=" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">O Surrealismo</span></a></em> (Perspectiva, 2008), de J. Guinsburg; <em><span style="color:#0000ff;"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2542737&amp;sid=20180716112122708372478181&amp;k5=604D614&amp;uid=" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Tribunal da História, volume II</span></a></span></em> (Imago, 2008), de Saul Fuks;  <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2931623&amp;sid=20180716112122708372478181&amp;k5=E01335E&amp;uid=" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">Da fabricação de monstros</span></a></em> (Editora da UFMG, 2009), de Julio Jeha e Lyslei Nascimento; e <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2962643&amp;sid=20180716112122708372478181&amp;k5=B665FD8&amp;uid=" target="_blank"><span style="color:#0000ff;">A Bíblia e suas traduções</span></a></em> (Humanitas, 2009), de Carlos Gohn e Lyslei Nascimento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">[Imagem: <em>Luiz Nazario</em>, 2000, Claudia Jussan.]</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/luiznazarioescritor.wordpress.com/96/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luiznazarioescritor.wordpress.com&amp;blog=11625701&amp;post=96&amp;subd=luiznazarioescritor&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O LAGARTO QUE SE APAIXONOU PELO SOL</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 23:15:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mal havia nascido, e o lagarto, já quase morto de frio, saiu de sua toca e sentiu o calor do sol. Largado sobre uma pedra cômoda, experimentou, pela primeira vez na vida, a doçura do calor aquecendo seu corpo de fora para dentro e de dentro para fora. Sempre pensando nisso, certa manhã, voltando o [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luiznazarioescritor.wordpress.com&amp;blog=11625701&amp;post=86&amp;subd=luiznazarioescritor&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/lagarto.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-90" title="LAGARTO" src="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/lagarto.jpg?w=300&#038;h=256" alt="" width="300" height="256" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Mal havia nascido, e o lagarto, já quase morto de frio, saiu de sua toca e sentiu o calor do sol. Largado sobre uma pedra cômoda, experimentou, pela primeira vez na vida, a doçura do calor aquecendo seu corpo de fora para dentro e de dentro para fora. Sempre pensando nisso, certa manhã, voltando o pescoço para cima, descobriu que o responsável pela sensação de plenitude que experimentava era um astro distante e luminoso. E, esquecendo-se das obrigações para com os de sua espécie, o lagarto apaixonou-se pelo sol, passando a querê-lo acima de tudo – acima da própria vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Ah, o sol poderia apaixonar-se por mim, e seríamos felizes para sempre, pensava o jovem lagarto. Mas o sol aquecia o mundo inteiro, e no mundo estava o lagarto, entre milhões de outros lagartos, e bilhões de outros seres, e trilhões de outras coisas. O lagarto, porém, acreditava que, um dia, o sol o perceberia, dentre os incontáveis grãos terrestres que ele generosamente aquecia. Ali estava aquele estranho lagarto verde claro, fascinado pelo sol distante, esperando que seu imenso amor fosse correspondido.</p>
<p style="text-align:justify;">Noite após noite, o lagarto sonhava com o sol: assim que o tivesse somente para si, cuidaria tão bem dele! Cada gesto seu seria carregado de afeto; protegeria o sol de todas as coisas tristes, feias e ruins deste mundo. Ele acariciaria o sol como o sol o acariciava. Esfregaria seu corpo no corpo solar, lambê-lo-ia todo, acasalar-se-iam e seriam felizes para sempre. Porém, dia após dia, o lagarto também se dava conta de que o sol não se achegaria nunca até ele: permaneceria lá em cima, aquecendo seu corpo à distância, quase sem querer, como que por obrigação.</p>
<p style="text-align:justify;">Curiosamente, a percepção cada vez mais nítida de que a paixão que devotava ao sol jamais seria por ele correspondida não impedia o lagarto de permanecer apaixonado. Ele não se conformava com o ter de conformar-se à sua condição de lagarto. <em>E, afinal</em>, perguntava-se, <em>por que, dentre todas as coisas do mundo, eu tinha de desejar algo tão fora de meu alcance</em>? O lagarto começou a sofrer como só os lagartos sabem sofrer. Sua depressão era tão profunda que mesmo sob o sol do meio-dia, largado em sua pedra confortável, seu corpo permanecia frio como gelo. O sol escarnecia de sua paixão. Humilhado e rejeitado, o lagarto não se alimentava mais, nem brincava com os outros lagartos. Mais tarde, passou a fugir do sol, pondo-se de lado, acabrunhado num canto, apenas observando, mais esverdeado que nunca, devido aos ciúmes, os outros lagartos felizes, aproveitando o sol, mas sem o amor que ele, e só ele, dedicava ao astro.</p>
<p style="text-align:justify;">Inventando um estratagema, o lagarto resolveu esconder-se na sombra, atrás de sua pedra costumeira, ingenuamente esperando que o sol notasse sua falta e o procurasse de alguma maneira. Mas o sol era indiferente à dor dos lagartos, e mais ainda aos estratagemas de encantamento de um lagarto apaixonado. E assim, em desespero, como um último recurso, o lagarto pediu a Deus – sim, os lagartos acreditavam em Deus, que eles imaginavam ser um enorme lagarto branco – que fizesse o sol apaixonar-se por ele. <em>Oh, Grande Lagarto Branco, amoleça o duro coração do Sol</em>, rezava o lagarto em prantos. Mas suas lamentosas orações eram soberbamente ignoradas: jamais o Grande Lagarto Branco daria ouvido a um lagarto apaixonado pelo sol, já que a religião dos lagartos ordenava que os lagartos se acasalassem com suas fêmeas, e nada mais.</p>
<p style="text-align:justify;">O infeliz lagarto voltou, cheio de amargura, para o fundo de sua caverna. A lembrança dos momentos felizes que havia gozado junto ao sol era-lhe agora tão dolorosa que o sangue frio de seu corpo tornara-se-lhe insuportável. Por que nascera assim, dependente do calor solar como de uma droga, incapaz de viver sem ele? O lagarto não sabia de nada. Era tão fácil ser como os outros lagartos! Tendo perdido suas esperanças, o pobre réptil abdicou de seu papel biológico no plano indecifrável do Grande Lagarto Branco – para que caçar moscas, estirar o pescoço em direção ao sol, acasalar? Melhor esfriar pouco a pouco, até o grau em que não podia mais sofrer, nem pensar, uma vez que só para o sol havia voltado sua mente, tornando-se puro sofrimento. E assim o lagarto apaixonado deixou-se esfriar, esfriando, esfriando, até morrer, tendo descoberto o segredo de sua existência e a impossibilidade de vivê-la, sabendo que o sol continuaria a aquecer os outros lagartos, inconscientes da fonte de sua vitalidade, sempre entretidos em caçar moscas e acasalar entre si, tão satisfeitos com sua eterna condição de lagartos.</p>
<p style="text-align:justify;">[Imagem: <em>Blue Belly Lizzard Sun Bathing In Vasona Park</em>, 2009, Shari M. Ortiz.]</p>
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		<title>A FILOSOFIA DE GEORGE SORGROS</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 22:54:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/a-filosofia-de-sorgros1.jpg"><img class="size-medium wp-image-156  aligncenter" title="A FILOSOFIA DE SORGROS" src="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/a-filosofia-de-sorgros1.jpg?w=300&#038;h=225" alt="" width="300" height="225" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Desde o despertar de sua autoconsciência, George Sorgros passou a buscar, com afinco, uma filosofia que aplacasse as inquietações da carne e do espirito, que o dominavam e o impediam de simplesmente “viver a vida”. Uma força poderosa impelia-o aos estudos – a necessidade de obter uma explicação, senão definitiva, pelo menos razoável, para o fenômeno da existência, que lhe parecia tão preciosa e desprovida de sentido. Depois de ler sofregamente, ano após ano, os grandes pensadores da humanidade, o jovem Sorgros deu-se conta de que a realidade, como ele a percebia, havia escapado daqueles homens tradicionalmente considerados sábios. Nenhum filósofo conseguira, a seu ver, agarrar a verdade pelo pescoço. O que Sorgros procurava era uma satisfação convincente da razão de ser do homem no mundo; mas todas as teorias que se lhe apresentavam deixavam vazar bocados da Verdade. Embora coerentes em si mesmos, os grandes sistemas do mundo eram como mãos se fechando para reter uma matéria gelatinosa, que insistia em escorrer entre os dedos.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao entrar na Academia, e agora sem muito tempo para aprofundar-se em volumosos tratados, Sorgros passou a dedicar a maior parte de seu lazer à leitura dos jornais. Considerava as manchetes diárias como índices importantes: “São o termômetro do mundo”, costumava segredar a seus alunos, que não entendiam bem o que aquele distante professor queria dizer com isso, uma vez que Sorgros não compartilhava com ninguém suas preocupações políticas. Houve, contudo, um aluno, Leonardo, no qual Sorgros depositou uma vaga esperança; um jovem desprovido de preconceitos e que possuía, como nenhum outro que passara por seus cursos, uma capacidade extraordinária de memorização.</p>
<p style="text-align:justify;">Contudo, ao conhecer o jovem mais de perto, Sorgros descobriu que ele preferia a companhia das pessoas à dos livros; ele era apenas um rapaz como os outros, apenas mais aberto à vida, e temporariamente desajustado, que logo encontraria seu posto entre os mantenedores da ordem social. E embora o interesse que o rapaz demonstrava por sua filosofia o exaltasse, Sorgros teve de concluir que ele jamais alcançaria a profundidade dela, assimilando precariamente seus conceitos. Essa diferença de entendimento, aparentemente inócua, ameaçava <em>à la longue</em> arruinar todo o sistema, baseado na integridade da Verdade. E assim, decidido a conservar a pureza de seu pensamento, Sorgros voltou atrás em seus sentimentos: não podia permitir-se qualquer envolvimento com alguém que, por sua diferença, impelia seu Eu a aniquilar-se. Sentindo-se mais só na companhia daquele jovem do que sozinho em sua solidão, Sorgros afastou pouco a pouco o estranho de seu convívio.</p>
<p style="text-align:justify;">O arquivo de Sorgros aumentava a cada ano e, agora, centenas de pastas repletas de recortes acumulavam-se contra as paredes de seu exígüo apartamento. Coladas nas pastas, etiquetas como “genocídios”, “desastres”, “crimes”, “atentados”, “guerras” e “violências” denunciavam os interesses de Sorgros. O filósofo atinha-se ao catastrófico, pois, a seu ver, só o negativo revelava a verdadeira natureza do homem, escancarando as portas trancadas do mundo. Na verdade, o que Sorgros buscava nas notícias recortadas que acumulava, assinando mais de vinte jornais diários, não era o conhecimento atual da sociedade, mas a natureza oculta dos fenômenos sociais. Por isso, era preciso recortar e ordenar os artigos segundo temas, reintegrando a síntese das matérias no contexto dos fatos até reconstituir a realidade esgarçada pela fragmentação dos acontecimentos e pela parcialidade de sua cobertura por repórteres sempre falhos, desatentos, maldosos, torpes e parciais. Somente após esse trabalho de Sísifo era possível compreender um fenômeno na sua totalidade, recuperando o elo perdido da cadeia de ações contraditórias e aparentemente incongruentes que constituíam a História.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim atrelada ao processo histórico, a filosofia de Sorgros tornou-se profundamente triste e pessimista – um sistema fraturado de pensamento, sem conformismo nem esperança, inteiramente dependente da regeneração do mundo, por sua vez condicionado à consciência total de <em>cada</em> <em>homem</em> nele existente. Entrementes, como o negativo passara a ocupar, nos últimos anos, cada vez mais espaço nos jornais, um dia, cansado de tanto recortar e classificar notícias para forjar teorias que não abarcavam tudo, sempre ultrapassadas por fatos novos, que desfiavam a teia de suas reflexões iniciais, Sorgros concluiu: “O mundo tornou-se impenetrável”. Cancelou a assinatura de todos os jornais que recebia, jogou seu rico arquivo no lixo, e passou a ocupar-se apenas de seu próprio pensamento.</p>
<p style="text-align:justify;">À medida que a filosofia de Sorgros tornava-se mais abstrata e subjetiva, sentia-se ele mais livre dos condicionamentos externos e seguro de suas conclusões. Na balbúrdia incontrolável em que agora se apresentava aos homens, o mundo exterior perdera para Sorgros todo e qualquer interesse. Mergulhando nas profundezas de seu próprio Eu, Sorgros não podia mais ser abalado pelo tremendo poder das notícias. Suas teorias haviam se desvinculado da realidade factual, constituindo um pensamento com nítidas conotações existencialistas. Mas, ainda que centrada no Eu, a nova filosofia de Sorgros terminava sempre no Outro. O Eu precisava do Outro para existir plenamente; apartado do Outro, o Eu sentia-se incompleto e rarefeito.</p>
<p style="text-align:justify;">Mesmo sem o concurso do mundo, mesmo suprimindo, da plenitude existencial, a caótica existência dos “seres abstratos”, apenas encontrados ou entrevistos na rua ou no trabalho, convertidos em imagens e números nas mídias e nos documentos, Sorgros sentia a necessidade imperiosa de ser contestado ou reconhecido – ouvido – por um “ser concreto”. Freqüentemente, apossava-se dele uma saudade incurável do único aluno que, por algumas semanas, havia amado – Leonardo, aquele jovem desajustado que estava agora trabalhando em uma companhia de seguros para sustentar uma esposa gorda e três filhos aborrecidos que, da esperança forjada, nada mais prometiam. E deste modo, sorrateiramente, o mundo voltava a imiscuir-se na filosofia de Sorgros sob uma forma física insubstituível.</p>
<p style="text-align:justify;">As reflexões finais de Sorgros diziam respeito à destruição do tempo e do espaço. Ele percebera que as dimensões humanas do mundo haviam sido alteradas pelo advento das redes mundiais de comunicação. O espaço fora tão reduzido, e o tempo tão acelerado, que nada mais conseguia fixar-se. A informática e a automação haviam se aliado para quebrar as últimas resistências da matéria. O imaterial agora dominava absoluto, e não havia mais encontros, nem sonhos compartilhados: os desejos e as esperanças da humanidade eram processados na rede mundial, e nessa teia giravam loucamente como moscas atordoadas, até se perderem para sempre.</p>
<p style="text-align:justify;">Não tendo jamais realizado seu desejo de transparência, Sorgros concluiu que a única filosofia possível era aquela que admitia seu fracasso na explicação do mundo e na revelação do homem, uma filosofia quebrada que, mesmo assim, continuava a arrastar-se até a morte. Sorgros caminhava a passos largos para a conclusão de sua obra. Estando o único possível Outro que encontrara na vida perdido no curto prazo de tempo de que cada homem dispunha para ser feliz, Sorgros deduziu também que seu Eu perdera-se nesta perda. Devastado pela Verdade Final do sistema que havia criado, Sorgros encerrou a busca que o mantivera vivo. Acompanhando o triunfo da morte, sua visão diminuiu a ponto de impedi-lo de ler e escrever. Os últimos dias de sua existência, Sorgros passou-os ouvindo <em>September</em>, de Kurt Weil, que, por alguma misteriosa razão, parecia-lhe resumir e sublimar o fracasso de sua vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Amargurado com a História do mundo e consigo mesmo, sem qualquer outra esperança, pouco antes de completar 94 anos, Sorgros morreu de câncer no estômago. Apenas duas pessoas foram ao seu enterro: Elza, a velha secretária da escola, que amara Sorgros secretamente durante quarenta anos, e Leonardo, aquele ex-aluno que depois de uma temporada no inferno abandonou a esposa e os filhos por uma incerta carreira literária. Esse ex-desajustado e ex-integrado, que jamais admitira ter amado Sorgros tal como este o amara sem admiti-lo a si mesmo, iniciava agora uma nova existência tomando como modelo a vida de seu único Outro.</p>
<p style="text-align:justify;">George Sorgros, o filósofo da existência em suspenso, vivera e morrera em completo silêncio, não chegando a publicar um único livro em toda sua vida. Não por falta de interesse da academia e das editoras. Ele simplesmente não conseguira organizar seus textos com uma introdução, uma série de capítulos encadeados e uma conclusão. Isso seria, a seu ver, uma traição, já que sua filosofia era uma estrutura aberta que só a morte poderia terminar, pela simples supressão do autor. Considerou, até o último suspiro, seu sistema inacabado; suas reflexões, inconclusas; seus escritos, imperfeitos. Em seu quarto, nas estantes de um enorme armário embutido na parede, foram encontradas 584 mil páginas manuscritas ordenadas por temas, com títulos sugestivos, compostas apenas de fragmentos.</p>
<p style="text-align:justify;">O tempo necessário para o trabalho de organização desse material para uma edição crítica foi calculado pelos especialistas em cerca de 80 anos. O trabalho foi iniciado por uma equipe de cinco estagiários sob a coordenação de Leonardo, que tinha, no entanto, a clara consciência de que ele mesmo não conseguiria chegar ao fim do projeto, devendo este ser retomado, talvez do princípio, por um dos estagiários que estava a formar. Assim, apenas as futuras gerações poderiam ter um dia acesso, em sua totalidade, à complexa filosofia que Sorgros concebeu para suportar a existência insuportável de seu ser no mundo.</p>
<p style="text-align:justify;">[Imagem: <em>Biblioteca</em>, 2000, Cláudia Jussan, esboço para a animação <em>A flor do caos</em>.]</p>
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		<title>A SALA DE ÂMBAR</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 22:03:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/o-salao-ambar1.jpg"><img class="size-medium wp-image-79  aligncenter" title="O SALÃO ÂMBAR" src="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/o-salao-ambar1.jpg?w=300&#038;h=210" alt="" width="300" height="210" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Em 1992, uma exposição vinda da Rússia, percorrendo toda a Europa, exibiu, pela primeira vez, uma rara coleção de peças de âmbar: caixas, porta-jóias, relicários, adornos, enfeites preciosos esculpidos na resina fossilizada de coníferas que cresceram há 55 milhões de anos. O maior depósito daquela preciosa resina situa-se nas encostas da embocadura do Vístula, nas proximidades da cidade de Königsberg. Polido, o âmbar adquire todos os tons de amarelo, do esbranquiçado ao marron avermelhado.</p>
<p style="text-align:justify;">Em 1642, a exploração do âmbar e sua manufatura foram reguladas pela chamada Prerrogativa do Âmbar, um privilégio que Frederico Guilherme obteve dos reis da Prússia, e que foi desde então herdado por seus descendentes. Durante os séculos XVII-XVIII, os mais belos trabalhos em âmbar, em geral porta-jóias, provieram de Danzig, destinados a presentear a Corte da Prússia. O mais importante destes presentes foi o Bernsteinzimmer – a Sala de Âmbar –, construído no Castelo de Charlottenburg em 1701, por ordem de Frederico I, provavelmente desenhado pelo grande escultor e arquiteto Andreas Schlüter, para ser executado pelo dinamarquês Gottfried Wolffram e por Ernst Schacht e Gottfried Turau, especialistas de Danzig.</p>
<p style="text-align:justify;">Em 1716, Frederico Guilherme I presenteou a Sala de Âmbar ao Czar Pedro I, selando a aliança russo-prussiana. O cômodo foi transportado para a Rússia e instalado no gabinete do velho Palácio de Inverno, tal como havia sido criado em Berlim. Em 1755, a Sala de Âmbar foi transferida para Zarskoje Selo, hoje Puschkin, e integrada ao <em>hall</em> de recepção do Palácio de Catarina. Para adequá-la ao espaço ampliado sem alterar suas características originais, o arquiteto Bartolomeo Francesco Rastrelli acrescentou-lhe espelhos, num trabalho de adaptação que levou oito anos. A Sala era composta por 1.765 peças de âmbar, uma coleção sem paralelo no mundo. Lajes, incrustações, móveis, objetos, lustres, pisos, adornos, tudo era feito de âmbar, em tons de creme, amarelo-leitoso e castanho avermelhado, com acabamentos de madeira e ouro.</p>
<p style="text-align:justify;">No decorrer da Segunda Guerra, antes mesmo da União Soviética ser invadida pela Wehrmacht, temendo-se bombardeios, a Sala de Âmbar foi inteiramente desmontada e toda sua coleção escondida em algum lugar próximo a Leningrado. Quando os nazistas ocuparam Puschkin, as peças foram levadas para o Castelo de Königsberg para serem aí reinstaladas. Mas pouco antes do castelo ser bombardeado, a Sala de Âmbar voltou a ser escondida, em galerias subterrâneas. Desde então, as peças desmontadas nunca mais foram encontradas.</p>
<p style="text-align:justify;">O destino da Sala de Âmbar permanece até hoje ignorado. Teria sido destruída pelos bombardeios? Teriam os homens que transportaram suas peças sucumbido antes de poder revelar onde as haviam escondido? Ou teria sido a Sala de Âmbar, na miséria que grassou após a guerra, vendida, peça por peça, a colecionadores particulares? Neste caso, há esperanças de que outras partes do tesouro, além daquelas reunidas na exposição itinerante, de obscura procedência, sejam ainda encontradas. Em 1979, o Conselho do Gabinete da República Russa decidiu construir uma réplica da Sala de Âmbar segundo os planos de Rastrelli e com base numa foto tirada por volta de 1912 – a única imagem existente da magnífica sala de dez metros quadrados, com quatro metros e meio de altura, que se desvaneceu sem deixar traços.</p>
<p style="text-align:justify;">É a visão de um salão palaciano orgulhoso de sua unicidade, que insiste em permanecer suspenso no tempo e no espaço, sem ter onde assentar seus fundamentos, existindo apenas na imagem de um de seus instantes. É a forma definitiva da Sala de Âmbar que a História encarregou-se de criar como se fora seu destino. Exuberante em sua perfeita imaterialidade, a Sala de Âmbar não mais feita de estuque, madeira e espelhos, carregada de pedras preciosas, como a que existiu outrora e como a que existe hoje, recriada a partir de sua imagem: na catástrofe da Segunda Guerra, um evento brusco e misterioso converteu a Sala de Âmbar na matéria mesma de que são feitos nossos sonhos.</p>
<p style="text-align:justify;">[Imagem: <em>A Sala de Âmbar</em>, fotografia do cômodo original tirada por volta de 1912.]</p>
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			<media:title type="html">O SALÃO ÂMBAR</media:title>
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		<title>AS PRAÇAS DA LOUCURA</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 21:52:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Despojado de sua fortuna por velhos inimigos tribais, Abu-Kamba, um dos príncipes mais ricos e menos conhecidos de toda a África, terminara sua aventura na Europa. Formado em Literatura e Artes, o desterrado príncipe de Kamba-Simba sofrera por três anos o mais amargo dos exílios, vivendo como um ambulante, vendendo bolsas, cintos e outros adereços [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luiznazarioescritor.wordpress.com&amp;blog=11625701&amp;post=73&amp;subd=luiznazarioescritor&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/savinio03.jpg"><img class="size-medium wp-image-74  aligncenter" title="Alberto Savinio" src="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/savinio03.jpg?w=300&#038;h=200" alt="" width="300" height="200" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Despojado de sua fortuna por velhos inimigos tribais, Abu-Kamba, um dos príncipes mais ricos e menos conhecidos de toda a África, terminara sua aventura na Europa. Formado em Literatura e Artes, o desterrado príncipe de Kamba-Simba sofrera por três anos o mais amargo dos exílios, vivendo como um ambulante, vendendo bolsas, cintos e outros adereços de couro pelas praças de Roma. Na sua atroz solidão e pobreza, aquele que reinara com soberba, antes de ter seu trono usurpado, aprendeu a fazer o que jamais fizera em sua pequena tribo dos Kamba-Kamba: sem ter sequer com quem conversar, pôs-se a refletir sobre a humanidade. A Europa havia, a princípio, fascinado Abu-Kamba. Mas, pouco a pouco, ele percebeu que aquele mundo de aparência esplêndida era oco e sem alma. Tudo o que nele havia de belo e bom era apenas uma crosta bem conservada. A vida não brotava mais de solos tão desgastados. A grandeza européia havia sido criada no passado, toda de uma vez, e de uma vez por todas, esgotando-se para nunca mais. A humanidade era ali uma imagem que só existia no esforçado apego dos herdeiros aos mitos de sua história. E havia uma boa razão para isso, pensava Abu Kamba, príncipe e mendigo numa só pessoa.</p>
<p style="text-align:justify;">Gente de todos os cantos do planeta ia à Europa gastar suas economias, às vezes juntadas com sacrifício. E para quê? Simplesmente para “ver”. Para ver “coisas”. Coisas “velhas”. Para contemplar “maravilhas históricas” que não eram mais fabricadas em nenhuma parte: casas, castelos, palácios, ruas, praças e catedrais de outrora – um continente-museu. Abu-Kamba pensou em seu povoado, tão pobre em atrações turísticas. Em Kamba-Simba, a História passara ao largo. Lá não havia nenhum Coliseu, nenhum Teatro de Marcelo, nenhum Panteão, nenhuma ilha Tiberina, nenhum Fórum Imperial, nenhuma Via Appia, nenhuma Catedral de São Pedro, nenhuma Capela Sistina, nenhum Castelo de Sant´Angelo, nenhuma Praça Navona. Apenas a imensa natureza selvagem. O povoado de Abu-Kamba não possuía nada que pudesse deslumbrar os estrangeiros.</p>
<p style="text-align:justify;">Mendigando anos a fio nas praças mais belas de Roma, Abu-Kamba pudera estudar o desenho de cada uma delas. Considerando a Praça de Espanha a mais bela de todas, tentara descobrir a razão de seu encanto: as flores nas escadarias, onde os jovens se aglomeravam, a igreja lá no alto como um pano de fundo&#8230; Sim, que lugar privilegiado! Seu coração era especialmente tocado pela fonte em forma de barca. A água, azulada pela cor da pedra do interior, jorrava sem cessar de dentro da barca, condenada a um eterno naufrágio. Ah, essa fonte era como o coração de Abu Kamba, tão cheio de amor e tão carente, transbordante e arruinado.</p>
<p style="text-align:justify;">Avançando em suas reflexões sobre a natureza humana, o jovem príncipe percebeu que, mais que os museus, mais que os prostíbulos, mais que os templos, mais que os cinemas e os teatros, mais que todos os monumentos, mais que tudo na Terra, eram <em>as praças</em> que atraíam os homens. As praças eram os <em>corações</em> das cidades, como a barca naufragada da Praça de Espanha era, para Abu Kamba, a materialização de seu coração ferido. As praças reuniam os desocupados, distraíam os pobres e infelizes, tornavam-se pontos de encontro e referência, de comércio e passeio, de trabalho e ócio. As praças concentravam a vida nas suas contraditórias necessidades: eram centros nervosos e de repouso, locais de negócio e retiros espirituais. Ali, as fontes, as estátuas e, sobretudo, as igrejas e catedrais impunham-se como velhos – hoje já quase esgotados – reservatórios de energia.</p>
<p style="text-align:justify;">Muitas vezes, para sufocar seus gemidos de raiva e decepção, depois das humilhações diárias sofridas em meio às maravilhosas ruínas de Roma, Abu-Kamba entrava nos templos e registrava cuidadosamente em sua mente todo o cenário. O ambiente parcamente iluminado resplandecia apenas quando um guia turístico colocava uma moedinha nas máquinas de iluminar. Em outros sacrários, a obscuridade servia exclusivamente ao mistério propiciado pelas velas de cera branca ou vermelha, acesas diante dos altares, fazendo bruxulear imagens de santos hoje ainda adorados, e em seu tempo martirizados das formas mais brutais. O príncipe encontrava certo consolo nessas representações de tortura e chegava a derramar lágrimas diante das Madonas, cobertas por ricos mantos rubros e dourados. Por uma falha em sua formação histórica, o africano confundia os mártires com prisioneiros de guerra e tomava as santas por antigas rainhas destronadas.</p>
<p style="text-align:justify;">Abu-Kamba interpretava assim ao seu modo a mensagem exposta naqueles teatros de sombras, naqueles museus de cera. Também ele sofrera como um mártir: se São Sebastião fora cravejado de setas, ele fora transpassado por olhares de desprezo; se São Lourenço ardera na fogueira, ele fora queimado vivo pelo desejo insatisfeito. Por isso, agora que seus inimigos haviam sido esmagados; que sua tribo novamente o chamara para reinar em Kamba-Simba; e que ele retomava a posse de suas minas de diamantes, Abu mostraria ao mundo não ser apenas um ambulante clandestino, um refugiado indesejável, que os brancos tratavam com desprezo e arrogância, mas um príncipe poderoso, cujo reino deveria tornar-se um dos pontos mais concorridos nos circuitos turísticos internacionais. Abu-Kamba havia decidido criar em Kamba-Simba um parque de atrações sem igual, uma coleção de praças que haveria de ser considerada a oitava maravilha do mundo.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim que retornou ao seu reino, Abu-Kamba reuniu todos os seus ministros e expôs os grandiosos projetos para a construção da nova cidade de Kamba-Simba, uma cidade idealizada e construída em função do turismo de massa. Como o arrojado príncipe não queria copiar nenhum modelo existente, pensou que as praças de sua cidade deveriam ser inteiramente calcadas em sua própria imaginação: “Não quero nenhuma Praça Farnese africana! Nenhuma réplica da Praça do Povo, da Praça do Capitólio, da Praça Esedra, da Praça de São Pedro ou da Praça Veneza. Devemos criar praças inexistentes! Só assim atrairemos turistas para a África! Nossas praças nada terão em comum com outras praças famosas da Europa, como a Praça dos Milagres, a Praça da Signoria, a Praça Maior, a Praça do Campo ou a Praça São Marcos. As novas praças de Kamba-Simba serão desenhadas com base nos meus sonhos, interpretados pelos maiores arquitetos do mundo. Cada artista criará uma praça sem paralelo, e todas deverão formar um conjunto grandioso e único, materializando toda a imaginação que desenvolvi na Europa!”, pronunciou Abu-Kamba, diante de sua Corte, que se quedou embasbacada com tamanha ousadia.</p>
<p style="text-align:justify;">Os gigantes da arquitetura mundial foram convidados pelos Ministros de Kamba-Simba para projetar as novas praças idealizadas pelo visionário africano, que os pagava regiamente, deles exigindo, em primeiro lugar, segredo absoluto de seus projetos. Zelando por seu nome, enlevado pela vaidade, cada arquiteto superava-se em sua imaginação para aplastar a criatividade dos concorrentes igualmente famosos. Apenas Abu-Kamba conhecia o teor de todos os projetos, trabalhando direta e separadamente com cada arquiteto. Queria, antes de tudo, que cada praça tivesse sua própria igreja. Não concebia esses templos exatamente como os santuários católicos de Roma, mas como um amálgama das impressões que deles tivera em sua peregrinação por aqueles locais.</p>
<p style="text-align:justify;">Milhares de africanos foram contratados pelo Ministério do Interior de Kamba-Simba para dar início aos trabalhos, que se estenderam por sete anos. A imprensa era sistematicamente afastada do reino, às vezes de maneira brutal. Abu-Kamba só concederia uma entrevista coletiva quando todas as praças estivessem prontas e o conjunto fosse habitado por imigrantes de todo o mundo, dispostos a viver em Kamba-Simba. Os dois irmãos mais jovens de Abu Kamba, os alegres e inseparáveis gêmeos Babe e Tutu, acompanhavam de perto os trabalhos, e davam bons conselhos aos engenheiros, sendo eles próprios engenheiros formados em Frankfurt. Poder-se-ia dizer que as praças de Kamba-Simba estavam se tornando as mais fascinantes criações do século XXI, pelo concurso de tantos gênios, livres para materializar a perturbada imaginação do príncipe. “Arquitetos podem criar paraísos”, havia um deles declarado ao chegar, justamente o célebre egípcio El Wahrid, que viera de Paris, em jato particular, para concretizar um dos projetos mais complexos de Abu-Kamba.</p>
<p style="text-align:justify;">Finalmente, depois de sete anos de planejamentos, obras e expectativas, a nova cidade imaginária foi inaugurada com pompa real. Ilustres convidados da aristocracia européia, do mundo da política, da moda e das artes internacionais abandonaram seus enfadonhos afazeres para presenciar o evento sensacional. Nunca antes na história recente do mundo um acontecimento despertara tanta atenção da imprensa e tanta curiosidade do público. Durante as semanas que antecederam a inauguração, os arquitetos foram seguidamente entrevistados nas redes mundiais de TV, mas cumprindo o acordo firmado com Abu-Kamba, nada revelaram de seus projetos. Os grandes jornais lançavam cadernos especiais sobre a vida e a obra de Abu-Kamba, sem qualquer base ou fundamento. Milhares de páginas na Internet descreviam a nova cidade segundo boatos ouvidos aqui e ali. Mas nenhum estrangeiro, de fato, pudera ver as praças de Kamba-Simba. Elas só foram liberadas para serem visitadas, fotografadas e filmadas no chamado “Dia K”. E tudo o que as mídias haviam dito, escrito e divulgado transformou-se, nesse dia, numa pálida fantasia.</p>
<p style="text-align:justify;">As praças de Kamba-Simba eram indescritíveis. Há muito o mundo não experimentava um choque estético tão tremendo. Seria como penetrar numa tela de De Chirico, Max Ernst ou Salvador Dalí, num cenário de teatro iídiche ou de filme expressionista alemão, transformados em espaços reais de dimensões gigantescas. Antonii Gaudí, Hundertwasser e Niki de Saint-Phale foram então considerados pelos críticos de arte como “precursores bem-comportados do estilo Kamba-Simba”.</p>
<p style="text-align:justify;">A colméia de edifícios criados pela equipe de arquitetos, segundo a imaginação de Abu-Kamba, era de uma assimetria vertiginosa. O chão de cada praça mostrava-se irregular pela própria natureza das labirínticas construções adjacentes. Muitos turistas, desacostumados com a novidade de imaginários concretizados, tropeçavam e escorregavam ao caminhar pelas ruas, a boca aberta de espanto. Alguns eram carregados em padiolas para o hospital, com ferimentos leves e taquicardia. Mas a curiosidade era tamanha que ônibus lotados de turistas chegavam sem parar. A cada ano as visitas eram mais concorridas, e logo foram criadas agências especiais para dar vazão às centenas de grupos que desembarcavam diariamente em Kamba-Simba, vindos, sobretudo, da Alemanha, do Japão e dos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align:justify;">A primeira praça a ser visitada pelos turistas, conforme a ordem tradicionalmente seguida pelos guias, era a <em>Praça da Gordura</em>. Era uma praça de grande amplidão, habitada por todas as vítimas de elefantíase e pelos homens e mulheres mais gordos do planeta, que se dispuseram a atender ao convite de Abu-Kamba para lá viver sem pagar taxas ou aluguel, recebendo, ainda por cima, uma generosa pensão. No centro da praça, havia uma enorme estátua de baleia branca, concebida por Botero, de cujo chafariz jorrava mel, com altas doses de glicose; os pesados respingos de seus jatos podiam ser sorvidos pelos passantes. Todas as lojas da praça vendiam chocolates, bolachas, doces, bombons, balas, sorvetes, bolos, tortas, refrigerantes, cerveja, massas e pizzas. As crianças podiam empanturrar-se com bengalinhas coloridas de <em>candies</em> distribuídas gratuitamente pelos guias. As pedras da calçada eram brancas, feitas com uma mistura original de calcário e açúcar. A Praça da Gordura possuía uma vasta igreja em forma de barriga, onde era cultuada a imagem da Nossa Senhora da Perpétua Gula, fixada devorando um porco assado, tendo a seus pés cornucópias, cheias de confeitos, e bandejas de prata, carregadas de guloseimas. Dentro da igreja, banquetes pantagruélicos eram servidos em rodízios a turistas enfastiados.</p>
<p style="text-align:justify;">Feliz por ter contado com o apoio de Babe e Tutu, Abu-Kamba presenteara-os com a Praça da Fantasia, na qual estavam representadas as sete cores do arco-íris: imenso chão coberto de mármore amarelo, fachadas em lápis-lazúli, chafariz feito de pedras de esmeralda, uma gigantesca catedral vermelha, carruagens turísticas puxadas por cavalos brancos e canteiros de violeta. Guirlandas cor-de-rosa e lilases ornavam as entradas de cada edifício. Para ali foram trazidos os mais diversos animais de pelo e penas coloridas, e as pessoas que viviam nessa praça – em sua maioria, homossexuais expulsos de Cuba ou fugidos dos países muçulmanos – deviam sempre se vestir com roupas de cores vivas. Ali se celebrava a Festa da Alegria, quando todas as cores se fundiam em maravilhosas aquarelas por meio de balões, raios laser e fontes luminosas. Todas as fantasias sexuais eram estimuladas durante os sete dias e noites do carnaval policrômico que Babe e Tutu organizavam anualmente.</p>
<p style="text-align:justify;">Mais além ficava a Praça da Histeria, também conhecida como a Praça das Explosões de Fúria<em>.</em> Era feita com diversos materiais existentes na África: ossos humanos, diamantes, marfim, palmeiras, conchas, pedras preciosas. O conjunto era disforme e desconexo. As perspectivas geométricas produziam choques visuais nos visitantes. O mal-estar progredia dentro do labirinto de espelhos que levava a um subsolo abafado e quente, cujo chão era forrado de pedras preciosas e pepitas de ouro. Os turistas bem que gostariam de levar dali algumas lembranças, mas, antes de poder encher os bolsos, eram atordoados pelos ruídos mais acachapantes, numa algaravia sem igual, que lembrava o barulho de um pátio de colégio espanhol cheio de crianças berrentas, ou um café brasileiro transbordante de homens de negócios em discussões acaloradas diante de suas calculadoras eletrônicas. Sons de guitarra irrompiam entre locuções esportivas, noticiários, gritos, gargalhadas e assobios. Alto-falantes invisíveis transmitiam discursos políticos em sete idiomas, remontados e mixados de modo a perder o sentido. Das palavras de líderes revolucionários, libertários, nacionalistas e totalitários, restava apenas o tom furioso, o acento de raiva, a intenção homicida. Os turistas emergiam com alívio para dentro do Templo Sagrado das Comunicações de Massa, que tinha a forma de um grande balão de borracha. Ali, milhares de bexigas eram infladas, até explodir, por centenas de jovens militantes, em turnos consecutivos. Aliviando suas tensões, os turistas os imitavam, pondo-se a estourar os balões que recebiam dos guias.</p>
<p style="text-align:justify;">Na Praça da Iluminação entrava-se por ruelas estreitas e escuras, até que subitamente o chão tornava-se luzidio: a praça em forma de estrela, recoberta com pó de ouro, brilhava tanto à luz do sol que os turistas, emergindo das trevas que a circundavam, ficavam subitamente cegos pela miríade de reflexos. Ali resplandecia a Igreja da Nossa Senhora da Alucinação, erguida como uma catedral, a segunda maior de todas as igrejas de Kamba-Simba, feita de minúsculas pastilhas furta-cor. Em vez de velas, ardiam nas capelas estrelas prateadas e douradas. Cada visitante podia soltar fogos de artifício diante dos altares, dedicando-os às pessoas que amavam. As Santas Maravilhosas, vestidas como rainhas, sorriam em quadros e estátuas de colorido esfuziante. Elas não celebravam a dor ou o sofrimento, nem a culpa e o martírio, mas a alegria de viver e o prazer dos sentidos. Drogas de todos os tipos eram servidas em bandejas, gratuitamente, aos peregrinos.</p>
<p style="text-align:justify;">Fazendo um grande contraste com a Praça da Iluminação, encontrava-se mais adiante a impressionante Praça do Nojo Absoluto, recoberta por treze centímetros cúbicos de serpentes, ratos e baratas. Fechada aos passantes, ninguém a habitava, podendo ser vista apenas do alto de um mirador. No fundo da praça, a Igreja Cósmica do Reino<em> Viscoso</em>, em forma de ruína sem teto e sempre vazia, era dedicada ao culto de Kate Capshaw, tal como fora vista por Abu Kamba, na primeira e última vez que fora ao cinema, numa cena de <em>Indiana Jones e o Templo da Perdição</em>, onde a grande atriz americana aparecia pisando em baratas; enfiando a mão num buraco cheio de matéria pegajosa; e finalmente coberta, até os ombros, por insetos repugnantes que lhe subiam pela loira cabeleira.</p>
<p style="text-align:justify;">A Praça dos Suicidas, também chamada de Praça da Melancolia, criada pelo arquiteto alemão Rudi Geisberger, lembrava uma tela de Caspar David Friedrich representando um cemitério pintado em lilás e sombras. Atrás de um enorme portão de ferro, um jardim de arbustos ressequidos abrigava, em fileiras melancólicas, as estátuas de Sócrates, Aristóteles, Demóstenes e Tito Petrônio; de Vicent Van Gogh, Piotr Tchaicovski, Nikolai Gogol, Marina Tzvetayeva e Vladimir Maiakóvski; de Camilo Castelo Branco, Mário de Sá-Carneiro, Antero de Quental e Florbela Espanca; de Kurt Tucholsky, Walter Hasenclever, Ernst Toller, Walter Benjamin e Klaus Mann; de George Trakl, Stefan Zweig e Bruno Bettelheim; de Cesare Pavese e Primo Levi; de Virginia Wolf e Dylan Thomas; de Hart Crane, Anne Sexton, Ernest Hemingway e Sylvia Plath; de René Crevel, Antonin Artaud, Jean Améry, Paul Celan, Roman Gary e Gilles Deleuze; de Ryunosuke Akutagawa e Yukio Mishima; de Nicos Poulantzas, Raul Pompéia e Reinaldo Arenas; e de tantos outros grandes suicidas da humanidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Cada monumento fixava o momento da morte de sua figura, incluindo os diversos instrumentos escolhidos por cada suicida para fazer cessar sua vida. Assim, Heinrich von Kleist era imortalizado estourando os miolos sobre o corpo da amante cancerosa que ele acabara de matar num pacto romântico; e Gérard de Nerval tinha sua morte fixada no belo monumento que representava o poeta, reduzido à miséria, pendendo pálido como giz de uma forca improvisada na Rue de la Vieille Lanterne. Um templo alojado no fundo do triste jardim, lembrando uma gruta úmida e sombria, era dedicado à Nossa Senhora dos Abandonados da Sorte. No altar, duas grandes imagens de Romeu e Julieta. No centro, submersa numa lagoa artificial, encontrava-se uma Ofélia coberta de liquens. Ao longo da nave cavernosa, afrescos iluminados por tochas rememoravam, como numa via crucis, os episódios históricos de Massada e de Numância.</p>
<p style="text-align:justify;">Finalmente, os turistas descobriam a Praça de Babel, a principal de Kamba-Simba. Fora projetada pelo egípcio El Wahrid, que se inspirara na Torre de Babel, de Pieter Bruegel, o Velho. O genial arquiteto fizera erigir uma torre de proporções vertiginosas, habitada pelos últimos membros das várias tribos em extinção no planeta, de modo que as línguas mais exóticas eram ouvidas, pela última vez, ao longo dos corredores que levavam ao cume, de onde se podia ter a mais impressionante visão das praças de Abu Kamba. A catedral da Praça de Babel, a maior de todas as igrejas de Kamba-Simba, toda feita de carcaças de aviões, navios e automóveis que haviam sofrido desastres, enroscava-se na gigantesca torre de madeira e era dedicada à Nossa Senhora das Catástrofes. Bem na entrada da Catedral, à esquerda, havia uma enorme estátua de bronze, representando o Anjo Exterminador, empunhando uma espada de ouro maciço. Ao fundo, dando a impressão de avançar sobre os visitantes, esqueletos de verdade, montados em cavalos esculpidos em prata, evocavam os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.</p>
<p style="text-align:justify;">Rios de dinheiro corriam para os cofres públicos de Kamba-Simba. O jovem príncipe havia criado algo de novo numa época tão pobre em imaginação, onde os arquitetos, escravizados pela vida prática e aferrados ao funcionalismo, só ousavam construir edifícios idênticos uns aos outros, todos de concreto, aço e vidro. As praças de Abu-Kamba foram vistas por cerca de sete milhões de turistas em apenas dez anos, e seria ainda celebrada por décadas se tantas desgraças não houvessem caído sobre elas, por culpa de um velho demônio que resolveu despertar de seu longo sono – tão longo que já parecia eterno.</p>
<p style="text-align:justify;">Não se sabe bem como, quando ou porquê, a população de Abu-Kamba começou a enlouquecer. Talvez o efeito de tantos estímulos sensoriais fosse, depois de certo tempo, nefasto ao espírito. Se os turistas que voltavam de Kamba-Simba guardavam uma imagem de êxtase e terror que perdurava pelo resto de suas vidas, como poderiam os habitantes daquelas praças passar incólumes pelo indescritível? O homem acostuma-se a tudo, é verdade, e até os habitantes de Veneza perdem, ao longo dos anos, a dimensão de sua felicidade inata, que é a de viver numa redoma de beleza sem igual no mundo. O problema de Kamba-Simba talvez fosse o constaste que suas praças propiciavam entre o sublime e o abjeto, entre a formosura e o horror. Viver entre o céu e o inferno confundia, sobretudo, as tribos quase extintas que viviam na Praça de Babel.</p>
<p style="text-align:justify;">Lentamente, os cultos misteriosos que Abu Simba imaginara começaram a tomar consistência e a ganhar uma aparência de realidade. Rivalidades religiosas passaram a dividir a população. As tribos freqüentadoras da Catedral da Nossa Senhora das Catástrofes passaram a acreditar cegamente no poder espiritual dos anjos – anjos da morte, anjos da guarda, anjos coloquiais, anjos de cabeceira, anjos de proteção, anjos de vingança, anjos de emergência, anjos de ataque e uma infinidade de outros anjos, inventados da noite para o dia, como uma defesa psicológica contra sua iminente extinção. Por incrível que pareça, desrespeitando as proibições expressas, a Igreja Cósmica do Reino Viscoso começou a ser freqüentada pelos seguidores de uma nova doutrina surgida em Kamba-Simba, trazida por alguns turistas americanos, e exposta no livro Catecismo da Livre-empresa Espiritual – Técnicas de Esforço Pessoal para uma Ascensão Fulminante. Através de exorcismos que propiciavam, segundo os pastores, “realizações vitoriosas da alma”, seus adeptos proliferaram rapidamente, cultuando a imagem de Kate Capshow entre cobras, baratas e ratazanas.</p>
<p style="text-align:justify;">Os partidários das outras igrejas desenvolveram uma forte aversão pelos membros da Igreja Cósmica do Reino Viscoso, que prosperavam a olhos vistos. Aliados aos fiéis da Catedral da Nossa Senhora das Catástrofes, moviam ações missionárias de “doutrinação reversa”, como eram chamadas as sessões de tortura praticadas pelos membros mais fanáticos dessa igreja. As sucessivas contendas culminaram numa série de incidentes sangrentos, que perturbaram o fluxo contínuo de turistas. Com a queda violenta da receita, a manutenção da cidade sofreu um sério abalo. Os recursos do tesouro de Abu-Kamba foram se esgotando. Seu reino, que desde a inauguração da cidade vivia basicamente dos dólares que jorravam das agências especiais de turismo, começou a decair. A cidade empobrecida não suportou mais o êxodo de imigrantes estrangeiros, atraídos pela fama de Kamba-Simba.</p>
<p style="text-align:justify;">A miséria e a promiscuidade nas margens da cidade trouxeram sucessivas epidemias que a sacudiram e devastaram. Abu-Kamba conseguiu ainda enviar Babe e Tutu para Frankfurt antes que eles adoecessem. Logo Kamba-Simba caiu em total abandono. Apenas alguns velhos, cegos e doentes, fracos demais para reiniciar a vida em outro local, continuaram a vagar por aquelas praças que, pouco a pouco, retornaram à selva, invadidas pela vegetação selvagem, e pelos bichos que escapavam da Praça do Nojo Absoluto.</p>
<p style="text-align:justify;">Com sua imaginação desfeita, Abu-Kamba adoeceu gravemente. Seus pensamentos febris voltavam-se, obsessivos, para o sentido de sua obra. Havia criado um mundo a partir do nada, mas este mundo não durara. E por que não durara? Porque não tinha raízes. Lembrava de histórias ouvidas no exílio sobre cidades que haviam passado por crises e ressurgido, séculos depois. Veneza comemorava todos os anos a vitória sobre a Peste Negra com uma festa comparável à Festa da Alegria. Haveria Kamba-Simba de ressurgir um dia de suas cinzas? Passeando pelas ruínas da Praça de Babel, Abu-Kamba soube que não: seu sonho acabara para sempre.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, antes de desmaiar, derrubado pela febre que o tornava lúcido como nunca, o príncipe sonhou um último sonho: “Estas praças não têm história, são apenas as praças da minha loucura. Nada aconteceu aqui. Ninguém transformou Kamba-Simba num símbolo de glória. Seu nome não despertará nenhum sentimento profundo na humanidade. É um nome comum, até cômico&#8230; Kamba-Simba já desapareceu do mapa. Minha bela cidade feneceu como as flores roubadas de um jardim. Contudo, num futuro distante, talvez um aventureiro descubra, numa expedição à África, as ruínas de uma cidade perdida. Seu companheiro de viagem, que costuma registrar tudo num diário, que será mais tarde publicado, há de escrever a crônica do fundador daquelas ruínas, um príncipe negro que humilhou a Europa com a beleza viva de praças saídas unicamente de sua imaginação. Não disse o poeta Mallarmé que o mundo existe apenas para terminar num livro?”, suspirou o africano, os olhos voltados para o céu, como nas imagens dos santos mártires que tanto admirava.</p>
<p style="text-align:justify;">“Então, talvez eu não tenha errado tanto, talvez eu tenha feito alguma coisa de minha existência. Talvez eu não tenha sido apenas um ambulante vendendo bolsas Gucci nas praças de Roma. Talvez eu não tenha desmaiado de fome à porta deste Museu de Keats e Shelley. Talvez os dois policiais que me carregam cochichando em italiano, tão parecidos com Babe e Tutu, sejam meus irmãos que trabalham como pedreiros em Frankfurt, e que vieram até aqui para me salvar desse exílio e me levar para casa. Talvez agora eu possa reconstruir Kamba-Simba, com toda a experiência que adquiri na Europa, criando praças de um outro tipo, ricas em acontecimentos históricos! Sim, desta vez, hei de certificar-me de nada deixar ao acaso, tendo em vista a curta memória do mundo. É isso! Agora criarei praças de guerra e de massacre! Parques de estupros coletivos! Salões de tortura! Câmaras de gás! Valas comuns! Campos de extermínio! E aí, então, com certeza, meu nome não será esquecido!”</p>
<p>[Imagem: <em>La cité des promesses</em>, 1928, Alberto Savinio.]</p>
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			<media:title type="html">Alberto Savinio</media:title>
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	</item>
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		<title>QUAL É O PREÇO?</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 21:30:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[– Boa tarde. Posso entrar? Gostaria de dar uma olhada em suas mercadorias. – Bem, se a senhora não se incomodar em deixar o cachorro no jardim&#8230; – Claro que não, ele já está acostumado. – A casa é pequena. Mas fique à vontade. Vou fechar a janela porque o sol me incomoda a essa [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luiznazarioescritor.wordpress.com&amp;blog=11625701&amp;post=70&amp;subd=luiznazarioescritor&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/quanto-custa.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-140" title="QUANTO CUSTA" src="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/quanto-custa.jpg?w=300&#038;h=166" alt="" width="300" height="166" /></a><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/chantal-powell.jpg"></a></p>
<p style="text-align:justify;">– Boa tarde. Posso entrar? Gostaria de dar uma olhada em suas mercadorias.</p>
<p style="text-align:justify;">– Bem, se a senhora não se incomodar em deixar o cachorro no jardim&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">– Claro que não, ele já está acostumado.</p>
<p style="text-align:justify;">– A casa é pequena. Mas fique à vontade. Vou fechar a janela porque o sol me incomoda a essa hora.</p>
<p style="text-align:justify;">– Obrigada.</p>
<p style="text-align:justify;">– Que posso fazer pela senhora?</p>
<p style="text-align:justify;">– Observei os interessantes objetos da janela. Mas não pude ver as etiquetas de longe. Terei de incomodá-la, visto que gostaria de saber qual é o preço de algumas coisas. Aquele estojo prateado, por exemplo. É uma cigarreira?</p>
<p style="text-align:justify;">– Aquele estojo precioso? Feito a mão na Argentina? Claro que é uma cigarreira, elemento decorativo imprescindível em banquetes especiais. Não imagina o efeito que produz, ao ser retirado de um <em>smoking</em>, e oferecido a uma dama, ou mesmo a outro cavalheiro. O estojo era de meu marido. Vou contar um segredo: foi com aquela cigarreira que ele me seduziu. Não imagina quantos amigos meu homem ganhou somente por oferecer cigarros com um leve toque de dedos naquele fino estojo de prata.</p>
<p style="text-align:justify;">– Que encantador! Gostaria de presentear meu marido com essa cigarreira.</p>
<p style="text-align:justify;">– Quem não gostaria? Não é qualquer esposa, contudo, que pode oferecer aquela cigarreira ao marido, especialmente se esse marido não a merece. Não me refiro à senhora, é claro, mas à cigarreira.</p>
<p style="text-align:justify;">– Meu marido é bonzinho. Ele me compra tudo o que quero. Merece a cigarreira. Qual é o preço?</p>
<p style="text-align:justify;">– Não duvido da bondade do seu marido, nem das qualidades que o fazem eventualmente merecedor de uma cigarreira, se é que ele fuma, o que não faz bem à saúde, pelo que meu marido, Deus o tenha, morreu de câncer. O que me inquieta em sua pergunta é que a senhora não se atém ao desejo de presentear seu marido com uma cigarreira. Não, a senhora passa rapidamente do abstrato ao concreto, do universal ao singular, aviltando a realidade com o desejo de presentear seu marido com uma cigarreira específica, justamente <em>aquela</em> cigarreira. Veja bem, aquela cigarreira não é uma cigarreira qualquer. É a cigarreira que me ligou pela primeira e última vez ao meu marido, a cigarreira que continha desde o princípio o amor de uma vida inteira e a causa mesma de seu fim, a maldita nicotina que levou Cristiano à morte!</p>
<p style="text-align:justify;">– Perdoe-me se lhe fiz recordar coisas tão desagradáveis. Eu queria apenas saber o preço da cigarreira.</p>
<p style="text-align:justify;">– O preço? Mas se a senhora nem sabe se seu marido merece aquela cigarreira!</p>
<p style="text-align:justify;">– Quer dizer que a senhora impõe condições para a venda da cigarreira?</p>
<p style="text-align:justify;">– Cara senhora, aquela cigarreira só poderia pertencer a um marido que tivesse a mim como esposa. E quem se casaria hoje comigo? Além do mais, já não fumo há 23 anos, desde que meu finado Cristiano contraiu a terrível doença que o levou desta para a melhor.</p>
<p style="text-align:justify;">– Entendo seu trauma. Vamos esquecer a cigarreira. Mas e aquela caixinha de madeira?</p>
<p style="text-align:justify;">– O porta-jóias marroquino de madrepérolas que minha mãe ganhou de um turista chileno que a ajudou a encontrar a saída do labirinto dos mercados de Marrakesch, e com o qual ela veio a se casar? Que me faz recordar os mais lindos dias de minha vida de solteira, quando me adornava toda para receber os pretendentes? Quando cada homem era para mim uma possibilidade de felicidade, e cada aventura uma porta aberta ao Éden? Quer que eu lhe venda a caixinha mágica de minhas lembranças mais excitantes e preciosas?</p>
<p style="text-align:justify;">– A caixinha ficaria um doce na minha cabeceira. Qual é o preço?</p>
<p style="text-align:justify;">– Desculpe senhora, mas esse porta-jóias não tem preço.</p>
<p style="text-align:justify;">– Bem, se é tão caro não faço questão&#8230; Quanto custa aquele sino?</p>
<p style="text-align:justify;">– É ainda mais caro, mais caro!</p>
<p style="text-align:justify;">– O que ele tem de especial? Um velho sino rachado!</p>
<p style="text-align:justify;">– É justamente essa rachadura que o torna único!</p>
<p style="text-align:justify;">– Poderia explicar-me o mistério?</p>
<p style="text-align:justify;">– É toda uma história de magia e sedução. Um poema vivido, modestamente, por mim mesma!</p>
<p style="text-align:justify;">– Mas&#8230; E a rachadura?</p>
<p style="text-align:justify;">– Pensa que pode saber tudo? Há segredos íntimos que guardo apenas para mim mesma e que levarei comigo para o túmulo! E para recordar-me disso, considero aquele sino e outros objetos aparentemente sem valor como indispensáveis à minha existência!</p>
<p style="text-align:justify;">– Sei&#8230; E aquele curioso vestido amarelo? Gostaria de prová-lo. Creio que é o meu número.</p>
<p style="text-align:justify;">– Era só o que faltava. Justo o vestido amarelo! Ainda que não me sirva mais, naquele vestido ninguém toca, nem por todo o dinheiro do mundo! Foi com ele que recebi o prêmio de melhor datilógrafa de 1937 no concurso do escritório da firma em que trabalhei honestamente por 25 anos! Imagine desfazer-me desse vestido. Seria cuspir na memória de meu chefe e de meus queridos colegas de trabalho. Não ouse tocar naquele vestido!</p>
<p style="text-align:justify;">– Oh, perdoe-me a indelicadeza. Como eu poderia saber? E aquela bolsa?</p>
<p style="text-align:justify;">– Faz parte do conjunto!</p>
<p style="text-align:justify;">– E os brincos? São de prata e esmeralda?</p>
<p style="text-align:justify;">– De alpaca e vidro verde. Tia Pepita ganhou-os de brinde junto com um perfume forte, décadas atrás, quando essas promoções existiam, nos bons velhos tempos. Ainda sinto um delicado perfume de jasmim quando vejo aqueles brincos, que ela usava com o perfume, até o dia em que a essência acabou, e ela não usou mais os brincos sozinhos, sem o odor que parecia emanar deles&#8230; A última vez que ela os usou foi no Paraguai, numa viagem mal explicada. Depois, guardou-os na mesma caixa da promoção, e quando fiz quinze anos de idade, ela me deu a caixa com os brincos e o vidro vazio do perfume, que durante alguns anos aspirei, até que ele secou completamente. Aqueles brincos, quando os coloco na orelha, trazem de volta minha adolescência. Não, aqueles brincos não saem daqui. A senhora teria de arrancar minhas orelhas para tê-los.</p>
<p style="text-align:justify;">– Como a senhora valoriza suas mercadorias!&#8230; É uma boa tática comercial&#8230; Não importa. Na verdade, o que me atraiu para sua loja foi a escultura da bailarina. Creio que ela combina perfeitamente com os móveis de meu escritório. E estou disposta a pagar bem por ela.</p>
<p style="text-align:justify;">– Claro que todos gostariam de ter uma escultura assim no escritório. É uma autêntica escultura de bailarina feita a mão.</p>
<p style="text-align:justify;">– Quem assina a obra?</p>
<p style="text-align:justify;">– Não sei. O que importa é que ela parece mesmo uma bailarina. Muito realista, não acha? Uma réplica perfeita.</p>
<p style="text-align:justify;">– Bem, a perna direita é um pouco mais gorda que a perna esquerda, e o rosto não ficou definido. Um dos braços foi lascado, e a orelha esquerda caiu, veja só o buraco. Isso reduz o preço, não?</p>
<p style="text-align:justify;">– Ledo engano. Essa escultura é pesada. Não imagina o quanto devo a ela. A bailarina salvou-me a vida numa tarde sombria, quando um intruso ousou entrar em meu quarto, pretendendo violentar-me. O que a senhora chama de lascas são o resultado dessa ação de defesa, que me permite estar hoje aqui falando com a senhora.</p>
<p style="text-align:justify;">– Mesmo assim, não pode ser tão cara&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">– Depende do preço que a senhora coloca na minha vida, ou na sua. Pois se a bailarina salvou minha vida, bem poderia salvar a sua. E qual é o preço da sua vida?</p>
<p style="text-align:justify;">– Bem, não avalio objetos nesses termos. Mas cada coisa vale o que vale, isto é, o trabalho que alguém teve para fazê-lo, um pouco de lucro pela venda, e o que mais?</p>
<p style="text-align:justify;">– Imagine se a senhora avaliasse um arlequim de Picasso pelo trabalho que ele teve para criá-lo. Ele não teve muito trabalho, não, levou algumas horas desenhando. O preço das coisas quem põe é o mercado, oscilando entre a influência e o mito agigantado. Como estabelecer um preço sobre a repercussão de um nome ou as lembranças de uma felicidade intensamente vivida? Hoje em dia todos falam em fusões e lucros fabulosos de milhões e até bilhões de dólares&#8230; Mas é de mitos e sensações que se trata!</p>
<p style="text-align:justify;">– O que me interessa, dona, é o preço dessa escultura!</p>
<p style="text-align:justify;">– Como todas as coisas que me são caras, a bailarina não tem preço! Não a vendo por dinheiro algum!</p>
<p style="text-align:justify;">– E a boneca de pano sem braço?</p>
<p style="text-align:justify;">– Minha primeira boneca? Não vou me desfazer de Juju, não. Antes morrer de fome! Antes me perder nas veredas do mundo.</p>
<p style="text-align:justify;">– E aquelas miniaturas?</p>
<p style="text-align:justify;">– Nunca! Cada uma delas me recorda uma viagem! Elas são o testemunho das parcas alegrias que tive nessa vida!</p>
<p style="text-align:justify;">– E a marinha pendurada na parede?</p>
<p style="text-align:justify;">– Não vendo! Foi um presente, senhora, um presente! O único que ganhei de minha melhor amiga, que eu amava muito, e que sempre foi muito pobre!</p>
<p style="text-align:justify;">– E o abajur com franja de miçanga?</p>
<p style="text-align:justify;">– É meu! Meu! Ouviu bem?</p>
<p style="text-align:justify;">– Mas então por que a senhora expõe tudo isso? O que a senhora faz nesse bazar de antiguidades, se não vende nada? O que pretende?</p>
<p style="text-align:justify;">– Minha senhora, se não há preço afixado nas minhas ditas mercadorias, é porque elas não estão à venda!</p>
<p style="text-align:justify;">– Como? Então a senhora me impinge o papel ridículo de ficar aqui tentando comprar umas velharias que a senhora não tinha a menor intenção de vender?</p>
<p style="text-align:justify;">– Veja como fala! Essas coisas são o que tenho de mais precioso! Elas são as minhas lembranças!</p>
<p style="text-align:justify;">– A senhora é louca! Vou reclamar nos órgãos de defesa do consumidor!</p>
<p style="text-align:justify;">– Talvez eu seja louca, sim&#8230; A idade, a miséria da aposentadoria, às vezes eu me alimento mal, nunca recebo ninguém, não sei mais como tratar as pessoas, as visitas&#8230; Às vezes confundo tudo&#8230; Eu não era assim&#8230; Desculpe-me&#8230; Eu me apego às minhas velharias, esse é o meu defeito&#8230; Vou morrer pobre, mas, por favor, deixe-me em paz com minhas lembranças&#8230; Esses cacos não valem nada, mas somados me devolvem algo de bom que o tempo roubou, algo que não existe mais, mas que revive quando fico sozinha contemplando-os&#8230; Nada substitui o que se perde na vida, nada é recuperado&#8230; A vida não tem preço, não sei porque a senhora insiste nisso&#8230; Deixe-me ficar com minhas coisas. Antes que a noite caia para sempre quero brincar com a minha Juju, acariciar meu vestido amarelo, usar meus brincos de vidro e sentir o cheiro de jasmim, dormir com a cigarreira de meu amor contra o peito até que não sinta mais a frieza do metal em minha pele&#8230; Seu dinheiro não me traria nada disso de volta&#8230; Não posso vender o que me resta&#8230; A senhora não pode me denunciar&#8230; Não é justo&#8230; Não entendo&#8230; Acho que é a senhora quem está louca. Foi a senhora que pediu para entrar. Sim, vá embora, suma daqui com o seu cachorro. A senhora não está na Sears, no Mappin ou na Mesbla. <em>A senhora está dentro da minha casa!</em></p>
<p style="text-align:justify;">[Imagem: <em>Antiquário</em>, 2000, Claudia Jussan, estudo para a animação <em>Dr. Cretinus retorna...</em>.]</p>
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			<media:title type="html">QUANTO CUSTA</media:title>
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		<title>O LADRÃO</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 21:06:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Vozes: – Pega o ladrão! Pega o ladrão! Tisna (com uma máscara de ladrão): – Ah! Ah! Ah! Eles não podem me pegar! Eu sou rápido, rápido como um trem. Eles não podem me deter, porque não podem me ver. Eu nunca estou lá onde eles pensam que estou. Vozes: – Pega o ladrão! Pega [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luiznazarioescritor.wordpress.com&amp;blog=11625701&amp;post=67&amp;subd=luiznazarioescritor&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/tisna-em-der-dieb1.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-92" title="TISNA - O LADRÃO" src="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/tisna-em-der-dieb1.jpg?w=230&#038;h=300" alt="" width="230" height="300" /></a></strong></p>
<p style="text-align:justify;">Vozes:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Pega o ladrão! Pega o ladrão!</em></p>
<p style="text-align:justify;">Tisna (com uma máscara de ladrão):</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Ah! Ah! Ah! Eles não podem me pegar! Eu sou rápido, rápido como um trem. Eles não podem me deter, porque não podem me ver. Eu nunca estou lá onde eles pensam que estou.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Vozes:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Pega o ladrão! Pega o ladrão!</em></p>
<p style="text-align:justify;">Tisna:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Sim, eu sou um ladrão! Não tenho pai nem mãe. Sou infeliz e sozinho. Roubar é minha vida, minha meta e minha profissão. E eu roubo tudo o que posso.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Vozes:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Pega o ladrão! Pega o ladrão!</em></p>
<p style="text-align:justify;">Tisna (com outra máscara):</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Eu roubo as coisas que me agradam. Eu roubo as flores, que apenas um dia florescem. Eu roubo os bancos, as lojas e os pedestres. Eu roubo todos os homens, tanto os bons quanto os maus. Eu assalto os pobres e os ricos, não tenho nenhum preconceito. A justiça e a  injustiça me são indiferentes.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Vozes:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Pega o ladrão! Pega o ladrão!</em></p>
<p style="text-align:justify;">Tisna:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Não sou nenhum monstro, mas ninguém me detém. E eu roubo, roubo, roubo tudo o que quero e vejo. Vocês têm dinheiro, jóias, carros, computadores? Cuidado! Roubarei tudo de vocês. Lentamente&#8230; Lentamente&#8230; Mas existe algo que roubo de preferência: as coisas que não têm preço.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Vozes:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Pega o ladrão! Pega o ladrão!</em></p>
<p style="text-align:justify;">Tisna (com outra máscara):</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Eu roubo a amizade e o amor. Roubo a pele jovem dos rostos. Roubo as cores dos quadros e o brilho das coisas. Roubo a força dos homens e a beleza das mulheres. Roubo de todos a memória e a imaginação.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Vozes:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Pega o ladrão! Pega o ladrão!</em></p>
<p style="text-align:justify;">Tisna (com a pior das máscaras):</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Impossível! Ninguém pode me pegar. Perto de mim Robin Hood era uma criança tola. Tudo o que é, tudo o que vive, posso roubar, destruir e despedaçar. Eu sou o maior ladrão do mundo. Meu nome é Tempo. Eu sou o Tempo!</em></p>
<p style="text-align:justify;">Tisna diz a cada pessoa do público:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>– Meu Nome é Tempo&#8230; Eu sou o Tempo&#8230; Meu Nome é Tempo&#8230; Eu sou o Tempo&#8230;</em></p>
<p style="text-align:justify;">Música alta (de Drafi Deutscher):</p>
<p style="text-align:justify;"><em>“Marmor, Stein und Eisen bricht, aber unsere Liebe nicht&#8230;” </em></p>
<p style="text-align:justify;">FIM</p>
<p style="text-align:justify;">[Imagem: <em>O ladrão</em>, de Tisna Sanjaya.]</p>
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			<media:title type="html">lunazar</media:title>
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		<title>O FORMIGUEIRO DE LONDRES</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 20:52:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[São seis horas da manhã, a bordo do Oostend Dover, em direção a Canterbury. Alguns passageiros dormem no chão, outros cochilam nas poltronas. Para distrair-me, procuro a sala de cinema do gigantesco ferry-boat e, ainda sonolento, compro um bilhete, mais caro que o normal, para ver Fatal Attraction. Ao entrar no cinema, às 6 horas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luiznazarioescritor.wordpress.com&amp;blog=11625701&amp;post=63&amp;subd=luiznazarioescritor&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/piccadilly-circus.jpg"><img class="size-medium wp-image-64  aligncenter" title="PICCADILLY CIRCUS" src="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/piccadilly-circus.jpg?w=300&#038;h=202" alt="" width="300" height="202" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">São seis horas da manhã, a bordo do Oostend Dover, em direção a Canterbury. Alguns passageiros dormem no chão, outros cochilam nas poltronas. Para distrair-me, procuro a sala de cinema do gigantesco <em>ferry-boat</em> e, ainda sonolento, compro um bilhete, mais caro que o normal, para ver <em>Fatal Attraction</em>. Ao entrar no cinema, às 6 horas e quarenta da manhã, o ódio gela-me o sangue: a tela do cinema não passa de um telão de vídeo! Hoje em dia, mesmo as salas de cinema projetam, sem pudor, <em>spots</em> em vídeo e DVD. Creio que foram as companhias aéreas que inauguraram essa profanação, prometendo “cinema a bordo” e oferecendo, aos passageiros, torpes e bruxuleantes imagens de vídeo.</p>
<p style="text-align:justify;">Chego a Canterbury depois de vinte horas de viagem e tenho apenas meia hora para visitar a catedral fundada por Santo Agostinho em 597 e onde Thomas Becket foi assassinado em 1170. A visão da vela que arde eternamente no local do crime, os arcos góticos, os tetos trabalhados como flores de pedra – tudo me leva ao êxtase. Tento trocar meu dinheiro por libras para comprar uns postais, mas a fila do banco é lenta e o tempo urge: volto para o ônibus com tanta raiva que quase tenho um acesso de choro. Penso que minha vida foi roubada, que se eu tivesse vivido minha juventude na Europa poderia passar todo um fim-de-semana nesta Canterbury que agora tenho que deixar em frustração, talvez para sempre, sem ao menos um postal de lembrança! Tiro algumas fotos, mas os interiores da catedral, seus nichos encantados, só os postais reproduziam com fidelidade. As fotos servirão apenas para lembrar-me da Canterbury em que estive sem poder conhecer.</p>
<p style="text-align:justify;">Desembarco, finalmente, em Londres. De tanto cansaço, penso que estou às portas da morte. Mas depois de um banho quente decido aventurar-me pelo mais velho metrô do mundo. Tenho apenas três dias e se não começar desde já a desvendar os mistérios dos meios de transporte, serei devorado pelo tempo. Sem grandes problemas, chego ao Electric Cinema, construído em 1910, o mais antigo da Inglaterra. Infelizmente, a programação não me atrai. Fotografo a fachada e sigo para Piccadilly Circus. Caminhando pela Leicester Square, rondando as livrarias da Charing Cross Road, lembro-me de Anne Bancroft exigindo do antiquário Anthony Hopkins a edição integral dos <em>Diários</em> de Pepys, em <em>Nunca te vi, sempre te amei</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Descubro, por acaso, o Teatro St. Martins, onde <em>A ratoeira</em>, de Agatha Christie, comemora 40 anos em cartaz. Não resisto: compro um ingresso na terceira fila. A peça me diverte enormemente. Não é o melhor mistério da escritora, sei há muito e desde o começo quem é o assassino, mas os atores são tão comicamente ingleses que rio sozinho com os diálogos, onde a palavra <em>quite</em> é repetida como um tique nervoso. Lamento que a fantástica Madeleine Newbury tenha que desaparecer depois que sua Mrs. Moyle é assassinada. O cenário, a neve, os móveis – tudo me recorda a Inglaterra, esse país imaginário onde agora <em>estou</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Londres parece-me à noite, com as luzes que magnetizam os pedestres à altura do Piccadilly Circus, um verdadeiro formigueiro. Passeio pela Trafalgar Square, com suas belas fontes, até o Big Ben. A visão do Parlamento e da torre do relógio talhada em rendas na pedra, com a iluminação esverdeada no topo, é inesquecível. Desde que existe, o Big Ben não marca o tempo, é o próprio tempo em forma de relógio – o relógio mítico por excelência. E junto com as linhas do metrô e os ônibus vermelhos de dois andares, os taxis londrinos são outra instituição preciosa: velhos modelos negros, onde os passageiros sentam-se em bancos tão largos que podem esticar toda a perna, e ainda sobra espaço. Também as casas vitorianas, com duas colunas brancas na porta de entrada, são traços de uma elegância antiga que perdura no formigueiro.</p>
<p style="text-align:justify;">Cheio de curiosidade, vou a <em>Five Guys Named Moe</em>, de Clarke Peters, no The Lyric. Um sucesso extraordinário, que revive os musicais negros dos anos de 1940, encenado com alegria vital por seis atores completos, que não só representam seus papéis, como também cantam e dançam muito bem. O melhor deles é Paul Medford como Little Moe. Centenas de folhetos coloridos com a letra de uma das canções são lançadas para que a platéia possa cantar junto. Os ingleses participam das brincadeiras, aplaudindo, ululando, dançando: os Moes organizam uma corrente humana para dançar a conga, e os espectadores serpenteiam pelo teatro, agarrados uns nos outros, como numa festa de arromba&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Na manhã seguinte, dirijo-me ao Museu Britânico. Na British Library, tenho, diante dos olhos, a <em>Magna Carta</em> e os manuscritos de Shakespeare. Uma exposição de vasos gregos ilustra os Jogos Olímpicos. Um modelo de Olimpia construído pelo próprio Museu em 1980 sugere como teria sido o santuário no ano 100 a.C.. Vasos gregos ilustram o programa dos eventos olímpicos, que transcorriam em cinco dias:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Primeiro dia. De manhã: cerimônia de abertura, com bandeiras e trombetas. Corrida de rapazes, boxe, competições. Preces e sacrifícios na área sagrada chamada Altis; consulta de oráculos. De tarde: discursos dos filósofos, poetas e historiadores. Corridas ao redor do Altis. Reuniões com velhos amigos.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Segundo dia. De manhã: procissão no hipódromo dos competidores de eventos eqüestres. Corrida de carruagens e de cavalos. De tarde: competições. De noite: ritos funerários em honra ao herói Pélopes. Parada dos campeões em torno do Altis. Entoação de hinos de vitória. Festas.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Terceiro dia. De manhã: procissão dos juízes, embaixadores, competidores, sacrifício de animais no Grande Altar. De tarde: corridas. De noite: banquete no Prytaneion.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Quarto dia. De manhã: competições. Ao meio-dia: boxe e pancrácio. De tarde: corrida em armaduras.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Quinto dia. Procissão dos campeões até o Templo de Zeus, para serem coroados pelos juízes com guirlandas e olivas silvestres.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Eis o mundo na sua pureza original: o apogeu do homem como senhor de si mesmo, sem a alienação das máquinas, da tecnologia, do dinheiro: tudo tinha valor intrínseco, tudo estava carregado de sagrado. Logo entristeço ao encontrar na sala 8 o Parthenon desmontado. Do grande templo só restam pedaços de estátuas, baixos-relevos, ruínas de ruínas que mal se distinguem: aqueles torsos quebrados, aqueles aleijões, foram os deuses e heróis de Atenas. Podia-se apenas admirar a luta dos homens contra os centauros nas pedras que decoravam o friso.</p>
<p style="text-align:justify;">Percorro o salão assírio, com seus caçadores cujos rostos, esculpidos em pedra, assemelham-se todos, e me deixo fascinar pelo mistério do Obelisco Negro. Diante dos restos do Mausoléu de Halicarnasso, uma das sete maravilhas do mundo antigo, com estátuas que teriam representado Mausolo e Artemísia e o gigantesco cavalo que teria sido um dos quatro que culminavam o monumento; e dos Portões de Balawat, restaurados como teriam sido antes da destruição da fortaleza, sonho com a vida nos palácios dessas cidades de um passado mítico cujos nomes evocam rituais, orgias, banquetes, intrigas, batalhas sangrentas: Nimrud, Nínive, Ashurnasirpal&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Na ala egípcia, as múmias atraem o público como magnetos. Mas é a grande e negra Pedra Roseta que mais me comove. Uma funcionária zela para que os curiosos não fiquem passando a mão sobre os caracteres das três línguas que um escriba perfeccionista gravou para fazer, séculos depois, a felicidade de Jean-François Champolion. Imagino sua emoção ao ter sob os olhos um documento tão rico, tão completo, tão pronto para ser decifrado.</p>
<p style="text-align:justify;">Li em algum folheto que Champolion nasceu em 1790, em Figeac, pequena cidade de Quercy, e cresceu entre livros – a mãe era analfabeta, mas seu pai era livreiro – e sua paixão pelo estudo levou-o ao Liceu de Grenoble, onde ingressou aos treze anos. Aos quinze dominava o árabe, o hebraico, o persa, o etíope, o sírio e o aramaico. Para ocupar os domingos, estudava a gramática chinesa. Depois de completar seus estudos no Collège de France e na École Pratique des Langues Orientales, em Paris, Champolion tornou-se professor da Universidade com apenas dezenove anos.</p>
<p style="text-align:justify;">Mesmo dominando tantas línguas, Champolion perdia a fala diante do ser amado. A um olhar do objeto de sua paixão, seu coração transbordava, fazendo com que todo seu corpo tremesse de desejo impotente. Fechou-se nos estudos. Encantado com a beleza dos hieróglifos decidiu decifrá-los. Mas os papiros de quarenta séculos, antes conservados em canudos de bambu, ao serem levados a Turim empilhados em caixas, sacudidos em semanas de úmida viagem pelo mar, desfaziam-se em pó assim que ele os tocava: dinastias inteiras apagavam-se diante de seus olhos, levando para o nada seus segredos. “Terra, cemitério de civilizações!”, pensava Champolion, amargurado.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando a expedição de Napoleão Bonaparte levou a Pedra Roseta para a França, Champolion, que por acaso conhecia três homens ligados à expedição – o físico Fourier, que o procurara para ajudá-lo a prefaciar <em>Description de l’Egypte;</em> Dom Raphael de Monachis, sacerdote de origem greco-síria que lhe apurou os conhecimentos de árabe; e o sacerdote Cheftitchi, vigário da igreja de São Roque, próxima à sua casa, com quem praticava o copta – pôde decifrar os hieróglifos ao comparar o mesmo texto que a Pedra Rosenta reproduzia nas outras línguas que ele conhecia. Mistério de um amor correspondido: assim como Champolion precisou da Pedra Roseta para entrar na História, a alta civilização do antigo Egito precisou de Champolion para vir à luz, revelando que o monoteísmo não fora, como se pensava, criação da cilização judaico-cristã.</p>
<p style="text-align:justify;">À tarde, visito o Guildhall, centro do governo civil há quase 900 anos, local de eleições, processos, recepções, banquetes e homenagens oficiais. O belo edifício foi parcialmente poupado do grande incêndio que devastou Londres em 1666 e dos bombardeios alemães que a arrasaram entre setembro de 1940 e maio de 1941. Foram danificadas as galerias e destruídas as estátuas de Gog e Magog. As que ali estão são cópias que completaram a restauração de 1954. Sigo para a Saint Paul Catedral, a quinta igreja construída sobre edificações que se sucederam à primeira, de 1710, obra de Sir Christopher Wren. Notável que sua cúpula de 111 metros tenha escapado ilesa das chuvas de bombas V1 e V2. Passo também em frente ao curioso Obelisco<strong><em> </em></strong>de Sir Wren, na Monument Street: com 67 metros, foi concebido e realizado entre 1671 e 1677 para ser o mais alto do mundo, em recordação do grande incêndio.</p>
<p style="text-align:justify;">Chego, enfim, às Torres de Londres, um complexo de antigas fortalezas e palácios reais, onde os filhos de Eduard IV foram assassinados, assim como duas das esposas de Henrique VIII, Anna Bolena e Catarina Howard. Começo a visita pela Torre Branca, onde se encontra a Capela de São João, a mais antiga de Londres, erguida no século XII. Como as armaduras interessam-me pouco, ponho-me na imensa fila dos que desejam ver as jóias da Coroa, expostas dentro de um cofre-forte gigante, dentro do qual entramos, fazendo a ronda em passo acelerado, sob o comando de guardas vestidos a caráter. São tantas pedras preciosas, tantos adornos em ouro maciço, que é um alívio ganhar a triste realidade e respirar um pouco de ar sujo. Mas antes de deixar a fortaleza, acabo entrando, por curiosidade, no Museu de Armas Orientais e surpreendo-me com uma armadura para elefantes de guerra.</p>
<p style="text-align:justify;">Caminhando ao longo do Tâmisa, ganho a Tower Bridge,<em> </em>em restauração. Tenho agora que voltar ao formigueiro, já que comprei uma cara entrada para ver Vanessa Readgrave em <em>Heartbreak House</em>, de Bernard Shaw. O Teatro Royal Haymarket é um monumento fundado em 1720, quando George I era o rei da Inglaterra e apenas dois teatros em Londres tinham sua permissão para apresentar peças. Lutando pela liberdade do teatro, o empresário Samuel Foote conseguiu obter uma patente real em 1766. Mas ele só podia encenar peças no verão, quando os outros dois teatros estavam fechados.</p>
<p style="text-align:justify;">Na bilheteria, observo um rosto conhecido: Peter Coyote, acompanhado de um jovem de cabelos escuros, bonito e elegante. Os dois, vestidos de negro, Coyote com uma capa preta de chuva ainda por cima, faziam charme na porta do teatro, hesitando, pensando se entravam ou não. Olhavam as fotografias afixadas à porta, trocavam comentários jocosos, subiam e desciam a rua, como que para ganhar tempo antes de tomar uma decisão. Faltando apenas cinco minutos para começar a peça, um homem alto passa por mim com pressa. Reconheço num lampejo aqueles olhos azuis, aqueles cabelos negros e lisos, aquele sorriso no rosto levemente vincado: é James Bond, quer dizer, Timothy Dalton, mais belo pessoalmente que nos filmes. Na sua pressa, esbarrou numa senhora e, um pouco sem jeito, desdobrou-se em desculpas, sem ser reconhecido. Curioso: ninguém percebia as celebridades senão depois de serem apontadas com o dedo. Ah, agora Peter Coyote voltou com seu amiguinho, faltando apenas três minutos para começar a peça! Os dois caminham decididos, detidos apenas por um mendigo, a quem o ator dá algumas moedas com muita destreza, entrando triunfalmente no teatro já lotado.</p>
<p style="text-align:justify;">No programa da peça leio esta pérola: <em>“Bernard Shaw turned Victorian values upside down and became an idol of the young. King Edward VII laughed so much at ‘John Bull’s Other Island’ that he broke the chair he was sitting on – sending Shaw’s reputation high into the air”.</em> Mas essa peça de Shaw é excessivamente longa e lenta. Meus olhos acostumados à ação contínua do cinema não se fixam senão penosamente nesse drama intimista, desenrolado num único cenário, sem grandes efeitos. Apenas no final algo “parece” acontecer, sem que nada aconteça de fato. Num elenco perfeito, apenas Paul Scofield mostrou-se canastrão: na pele do velho capitão Shotover, tremulava a voz e dizia as frases como um moribundo. A surpresa foi ver Vanessa Readgrave morena. Com seus cinquenta anos, continua linda – uma deusa grega en cena, interpretando a peça inteira descalça. Ela têve um grande momento ao dizer, de repente: “O que quer o homem?&#8230; Ele tem tudo, comida, casa, amor&#8230; e não está satisfeito&#8230;”.</p>
<p style="text-align:justify;">Passo a manhã de sábado no mercado de pulgas de Portobelo Road, imortalizado em <em>Mary Poppins</em>. São quarteirões inteiros repletos de barracas de coisas interessantes. Que tortura para os bolsos! Sem poder comprar nada, tomei outro metrô para a Abadia de Westminster. Sob o esplendor de sua arquitetura gótica, em tumbas que são obras de arte repousam reis, rainhas e homens como Isaac Newton e Geoffrey Chaucer. Pode-se ver o trono de madeira onde Eduardo I foi coroado, desde então usado para o coroamento de quase todos os reis da Inglaterra. Num canto da abadia, sem a pompa das criptas e das capelas, encontram-se os restos mortais de Laurence Olivier, Samuel Johnson, Charles Dickens, Rudyard Kipling, Thomas Hardy, D. H. Lawrence, T. S. Eliot, Henry James, Dylan Thomas, Lord Byron, Lord Tennyson, Robert Browning, William Auden&#8230; Na placa de metal de Lewis Carroll está gravada, como epitáfio, sua frase: “Is all our life, then, but a dream?”. É como sinto minha vida, aqui, inesperadamente.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas não há tempo a perder: procuro, agora, os Cabinet War Rooms, excitado por um gigantesco anúncio afixado nas galerias do metrô que dizia: “Visite o local que Hitler gostaria de ter visitado.” Trata-se do <em>Bunker</em> onde Churchill e seus ministros, generais, telefonistas e secretárias refugiaram-se para continuar a guerra contra o império nazista. A Inglaterra resistia como a última democracia da Europa, as bombas caíam dia e noite sobre Londres e os londrinos abrigavam-se nas galerias do metrô, onde dormiam, cozinhavam e improvisavam escritórios, enfermarias, banhos&#8230; Cecil Beaton e Bill Brandt documentaram a dignidade dos londrinos durante a <em>blitz</em>. E um dos flagrantes mais comoventes da Segunda Guerra – talvez cuidadosamente encenado como uma imagem de propaganda, mas que maravilhosa imagem de propaganda – é aquele da Biblioteca Holandesa atingida por bombardeios, os ingleses consultando os livros nas estantes magicamente intactas entre as ruínas, indiferentes ao desabamento do teto e das vigas, concentrados em sua busca, superando com a única força de seus espíritos toda a destruição que os rodeava&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Dentro dos Cabinet War Rooms somos transportados para aqueles anos de loucura, onde a liberdade têve de refugiar-se debaixo da terra para sobreviver ao mal absoluto. É o museu mais fascinante do mundo. Nada pode ser mais estranho, distante e exótico que a história recente da Europa. O <em>design</em> dos objetos e móveis, os telefones verdes combinando com os abajures da mesma cor poderiam ser cenários de um filme de David Lynch. Fico a imaginar as secretárias dormindo poucas horas, entre um telefonema urgente e a tradução de um código secreto, Churchill agarrado ao seu aparelho telefônico, soltando baforadas do charuto, as bombas caindo do lado de fora, os estrategistas acompanhando o movimento das tropas, espetando em mapas alfinetes de todas as cores&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">À saída do Bunker<em>, </em>assisto à troca de guardas do Palácio de Buckingham, com a banda de música, os cavaleiros e soldados de uniforme vermelho e cômicos chapéus de feltro negro. Passeio pelo Parque Saint James, onde se fazem piqueniques com cadeiras de praia postas à disposição de todos. Volto para a Trafalgar Square e visito a National Gallery, um palácio elegante que abriga, entre outros quadros famosos, o<em> São Jorge e o Dragão</em>,<strong> </strong>de Tintoretto, que Sartre dissecou num de seus raros escritos sobre pintura. Prossigo até o Covent Garden, onde poderia passar o dia inteiro nos cafés e restaurantes. Mas, sem dinheiro, tenho que me prover de alimentos num supermercado. Decido fazê-lo na Baker Street, apenas pelo prazer de passear pela rua onde “morou” Sherlock Holmes.</p>
<p style="text-align:justify;">Ah, <em>London kills me,</em> como no título de um filme em cartaz. Eu estava mesmo esgotado, faminto, alquebrado. Por que essa loucura de conhecer tudo? “O que quer o homem&#8230;?”. Fome de absoluto, jamais satisfeita, desejo infinito que me destrói por dentro, porque não posso conhecer tudo, e mesmo assim continuo a agir como se isso fosse possível, sem um minuto de paz, até que, completamente falido, posso respirar aliviado, pois já não tenho mais o meio de acabar-me em programações sem fim. Gozo, então, o <em>farniente</em>, flanando pelo formigueiro de Picadilly Circus.</p>
<p style="text-align:justify;">É o melhor momento <em>físico</em> da viagem, quando nada mais me resta a fazer, a não ser observar os outros a se consumirem no tempo, entregues às suas loucuras particulares: mímicos imitando transeuntes, jovens negros dançando como autômatos, uma negra pintada de branco ao lado de um jovem branco de aspecto normal, ambos simulando um casal de bonecos com a maior naturalidade do mundo; um grupo de pregadores do Apocalipse carregando uma cruz enorme; mendigos tocando gaita; músicos de rua entretendo casais de milionários e portadores de <em>jeans</em> rasgados; retratistas trabalhando a vaidade de seus modelos sob o Rock Circus; todas as etnias e línguas dissolvendo a identidade da cidade, tornando-a, por isso mesmo, habitável pelo homem, esse eterno projeto que só pode agora realizar-se nesses irremediáveis<strong> </strong><em>formigueiros</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">[Imagem: <em>Piccadilly Circus</em>, 1991, Luiz Nazario.]</p>
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		<title>AS NOITES DE AMSTERDAM</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 20:45:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Laura Serrano estava cansada de tudo, até de seu amante: a visão de Vinícius deitado ao seu lado, todo fim de semana, começou a incomodá-la; o cheiro forte que emanava daquele corpo másculo, que ela havia antes saboreado, agora a deixava enjoada. Noite após noite, regava suas insônias com as emissões ininterruptas da TV a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luiznazarioescritor.wordpress.com&amp;blog=11625701&amp;post=60&amp;subd=luiznazarioescritor&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/starry_night_over_the_rhone.jpg"></a><a href="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/starry_night_over_the_rhone-2.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-100" title="Starry_Night_Over_the_Rhone 2" src="http://luiznazarioescritor.files.wordpress.com/2010/01/starry_night_over_the_rhone-2.jpg?w=300&#038;h=245" alt="" width="300" height="245" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Laura Serrano estava cansada de tudo, até de seu amante: a visão de Vinícius deitado ao seu lado, todo fim de semana, começou a incomodá-la; o cheiro forte que emanava daquele corpo másculo, que ela havia antes saboreado, agora a deixava enjoada. Noite após noite, regava suas insônias com as emissões ininterruptas da TV a cabo. Não tinha mais qualquer satisfação. Resolveu vender tudo o que possuía – dois telefones, um computador, a TV, os poucos livros, alguns móveis e um carro – e fugir daquela rotina insuportável. Com o dinheiro arrecadado – cerca de 20 mil dólares – tomou um avião para Frankfurt. Laura estudara alemão durante anos e sentia curiosidade em conhecer a Alemanha, especialmente aquela cidade. Mas dois dias foram o bastante para odiar a cidade, tão fria e moderna quanto São Paulo. “Frankfurt é apenas um nome”, pensou, juntando-se a um grupo de turistas alemães num pequeno <em>tour</em> pela Holanda. O ônibus estava cheio de velhinhos, que ficavam testando, como crianças, as alavancas das poltronas. Uma senhora chegou a dizer muito seriamente ao marido, que não conseguia ajustar a sua: “Se não consegue, informe-se junto ao motorista!”. Laura jamais compreenderia a mentalidade alemã.<strong></strong></p>
<p style="text-align:justify;">Durante a excursão, houve surpresas, como o Keukenhof, o maior parque de tulipas do mundo, de cuja existência Laura nunca tivera notícia: entre milhões dessas flores de todas as cores, as tulipas negras encataram-na de modo especial. Também houve decepções, como Rotterdam, pois ela tampouco sabia que a cidade havia sido completamente bombardeada pelos alemães, de modo que hoje nada restava de sua gloriosa arquitetura medieval. A cidade era um “paraíso para arquitetos”, que aí experimentavam construir os mais horrendos prédios modernos.<strong></strong></p>
<p style="text-align:justify;">Laura divertiu-se em Madurodam, a cidade miniatura construída para George Maduro, um jovem rico de Curaçao, que fora a Leiden estudar administração. Quando começou a Segunda Guerra, ele se engajou como tenente, foi capturado pelos alemães e sucumbiu em Dachau pouco antes da Libertação. Seus pais erigiram o parque em sua homenagem, concluído graças ao empenho de certa senhora B. Boon-van der Starp. Laura sentiu-se uma mulher gigante entre as réplicas perfeitas em escala dos monumentos mais célebres da Holanda.</p>
<p style="text-align:justify;">Den Haag, a capital política, possuía outras atrações, a começar pelo Binnenhof, um velho castelo de caça erigido atrás do rio Dünen, no século XIII, pelo conde Floris V, que aí recebia convidados para banquetear na Sala dos Cavaleiros, a maior construção gótica profana da Europa, com 26 metros de altura. Era desejo do conde que nenhuma mentira fosse ali proferida e, para isso, fez construir cabecinhas de madeira num teto em forma de casco de caravela: o povo deveria acreditar que aqueles “escutadores” zelassem pela verdade. Pobre conde Floris: morreu assassinado pelos nobres. Na Baixa Idade Média, sua sala foi transformada em mercado; na época napoleônica, serviu de cavalariça e hospital. Foi restaurada em 1904. Hoje, a cada terceira terça-feira de setembro, a rainha e seu cônjuge vão até lá numa carruagem dourada, onde recebem mil convidados, num teatro acompanhado por milhões de bobocas via rádio e TV.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura prosseguiu a visita num outro edifício, projetado pelo arquiteto Pi de Bruijn, onde se encontrava a segunda Câmara – um pesadelo de vidro e granito, com assoalho e paredes somando 18 mil metros quadrados de pedras importadas do Brasil e da Sardênia. Ao fundo, estruturas de metal agarravam um belo edifício antigo, como a querer devorá-lo. Na sala do plenário, de teto azul e chão verde, um gigantesco <em>panneaux</em> de cores berrantes devia provocar dores de cabeça nos deputados ao longo das sessões legislativas. Que alívio deixar esse ambiente e penetrar na Mauritiushuit, a casa de Maurício de Nassau, transformada em museu para abrigar a coleção real de pintura.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura quis conhecer o Panorama Mesdag, o primeiro grande precursor do cinema. Uma tela gigantesca e circular representava a aldeia de pescadores de Scheveningue: mar do Norte, gaivotas, barcos, banhistas, paradas de soldados, casas, toda uma aldeia. Ao entrar no gabinete, Laura viu-se cercada por uma pintura circular de 1.680 metros quadrados de superfície, 14 metros de altura e 120 metros de circunferência, iluminada pela luz natural, mas encoberta de tal maneira que criava uma ilusão de realidade, acrescida pela terceira dimensão fornecida por objetos reais dispostos entre o observador e a tela: dunas de areia, pás, baldes, pedras, redes&#8230; “Que sensação lisérgica! É como se estivéssemos na praia, mas numa praia de sonho, pintada a mão”, pensou Laura, fascinada.</p>
<p style="text-align:justify;">Em Delft, seu grupo foi levado a ver como era feita, manualmente, a famosa porcela azul. Teria preferido passar a tarde na praça belíssima, com a igreja na qual todos os reis da Holanda eram enterrados, “depois de mortos, é claro”, como havia observado a guia holandesa. Frustrada e aborrecida, Laura desligou-se do grupo e tomou um trem regional para Utrecht.</p>
<p style="text-align:justify;">Foi, finalmente, em Utrecht que Laura encontrou a Europa com a qual havia tanto sonhado, a velha Europa das torres, vielas e castelos. Em Utrecht, sim, sentiu-se outra: passeou pelos canais, pelas esquinas encantadoras, pelo romântico jardim no claustro da igreja gótica; encantou-se com o Museu Nacional do Relógio Musical ao Orgão de Rua, uma das maiores coleções de caixinhas de música, rouxinóis mecânicos, carrilhões, relógios de flauta, pianolas Steinway, <em>tingel-tangels</em> e orquestras mecânicas. Os instrumentos, alguns com mais de duzentos anos, a base de corda, sopro ou rolo perfurado, geravam músicas que pareciam saídas de desenho animado, músicas automáticas que Laura continuou ouvindo muito tempo depois, longe de Utrecht&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, afinal, para onde Laura partia? Ela não tinha um objetivo definido. Como buscava horizontes, pensara na Holanda, onde se respirava liberdade; afinal, seu povo havia vencido a natureza, obtendo 40% de seu território do mar com a ajuda dos moinhos, hoje infelizmente em extinção. “Deus criou o mundo, mas nós criamos nossa terra”, gostavam os holandeses de dizer. O país abrigara judeus perseguidos pela Inquisição e hoje acolhia os refugiados da Miséria. Durante a ocupação nazista, contudo, os holandeses colaboraram. Laura soubera disso através do guia turístico, em outra excursão, para Amsterdam, que fazia junto com um divertido grupo de homossexuais espanhóis. A guia mencionou o episódio referindo-se aos colaboradores com desprezo e, querendo dizer que os holandeses colaboracionistas “se juntaran con los alemanes”, declarou, num ato falho, “se juntaran con los animales”.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim que chegou a Amsterdam, Laura tomou o <em>bâteau mouche</em> para apreciar a perspectiva da cidade de dentro dos canais. Decobriu que havia mais de mil pontes em Amsterdam: “Os canais estão cercados por canaletas, mas, mesmo assim, pelo menos um automóvel cai a cada ano!”, informou o guia, cheio de orgulho. Passaram por um maravilhoso canal do século XVII, uma perspectiva através da qual era possível admirar seis pontes simultaneamente. Também observou que as velhas casas de Amsterdam possuíam todas um gancho sob o telhado: as portas eram tão estreitas que os móveis, numa mudança, tinham de passar pelas janelas por meio de cordas e roldanas.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois desse passeio, Laura decidiu permanecer em Amsterdam o quanto durasse seu dinheiro. Sentia-se bem nessa cidade cercada de água por todos os lados, a um tempo calma e agitada. Hospedou-se num hotel barato da Leidsegracht, e começou a freqüentar os buracos da cidade. Depois de rondas noturnas por bares e discotecas, conheceu o marinheiro Franz, que a levou para conhecer o Palácio Real, a Oude Kerk, a Magere Brug, a Casa de Anne Frank, o Museu de Cera de Madame Tussaud e um bosque cujas árvores haviam sido plantadas nos anos de 1930, para dar trabalho aos desempregados. Franz também a conduziu ao estádio construído para os Jogos Olímpicos de 1928 e ao leilão onde se vendiam 15 milhões de flores por dia. Laura apaixonou-se por Franz, tão loiro e carinhoso, e acompanhou-o em suas constantes viagens no barco em que morava para não pagar certos encargos. Depois, acostumados um ao outro, passaram a viver juntos.</p>
<p style="text-align:justify;">Era bem isso o que Laura havia procurado na Europa: um romance, um conto de fadas. Desejara ser seduzida, carregada para longe da vida medíocre que levava como tradutora. Sonhara viver zarpando de um porto a outro, de uma cidade a outra, de um continente a outro, numa rota de prazer e encantamento. Mas logo as aventuras que Franz lhe proporcionava foram perdendo a magia: lavar as roupas no barco, viver na estreiteza de uma cabina, ficar suja por dias seguidos&#8230; Onde estava com a cabeça ao pensar que a vida num barco era um poema? Essa vida pretensamente aventureira era, no fundo, penosa e aborrecida.</p>
<p style="text-align:justify;">Os dias se passavam e Laura começava novamente a se cansar das recaídas de Franz nos antros viciosos, do silêncio impenetrável que se instaurava entre os dois, das aborrecidas tarefas domésticas, da claudicante rotina sexual. Decidiu abandonar seu marinheiro de pele cor-de-rosa e olhos azuis e voltar a viver sozinha no hotelzinho da Leidsegracht.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura intrigava-se com o que <em>conservava</em> as relações humanas. Curioso como as mulheres não se fixavam na beleza dos homens, por mais que essa beleza as agradasse, enquanto os homens atribuíam à beleza um papel tão importante. Enquanto os homens feios fossem capazes de espelhar a beleza narcísica de suas companheiras, seja através de presentes caros ou palavras aduladoras, elas tinham o sentimento de pertencer a algo, de ser alguém. Ter um homem era, para uma mulher, uma necessidade vital. Ter uma mulher era, para um homem, apenas uma etapa na sua marcha para o sucesso. Os homens podiam ser feios, se tivessem dinheiro ou pelo menos capacidade de ganhá-lo. As mulheres precisavam ser belas e ainda embelezar-se: como troféus conquistados a serem exibidos aos amigos e à sociedade.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas que satisfação encontrava o homem <em>na</em> <em>mulher</em>? Laura nunca soube ao certo. Nostalgia do carinho infantil pela mãe, projetada num corpo mais jovem? O corpo da mulher excitaria o homem mesmo sem qualquer fantasia? A beleza feminina era exaltada na arte e na publicidade. Mas era assim na realidade? Havia rostos femininos extraordinariamente lindos, peles de seda, olhos enormes, bocas como frutos maduros. Mas que dizer dos seios, que davam às mulheres uma forma animalesca? Seios podiam ser desejáveis. Mas belos? O corpo do homem parecia a Laura <em>objetivamente</em> mais atraente. Mas só até certo ponto.</p>
<p style="text-align:justify;">Desejável no calor do sexo, o pênis repugnava à vista em qualquer outra ocasião: um apêndice de carne mole e enrugada. Os <em>streapers</em> masculinos faziam bem em terminar seus números na sunga. Aparentemente, nenhum órgão de prazer, seja masculino ou feminino, gozava de beleza. A vagina não era um horror? Melhor não entrar em detalhes. E o ânus? Quantas coisas asquerosas no corpo humano! Só um desejo cego fazia homens e mulheres se penetrarem e se entregarem a órgãos repelentes em si mesmos. Por isso Laura desprezava o erotismo, que tentava “embelezar” a realidade com fantasias idiotas, tanto quanto a pornografia, que só fazia aumentar a feiúra da cópula com uma lupa.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura pensava em tudo isso sentada num banco público a alguns passos da livraria Athenaeium, diante da estátua de um menino risonho de mãos na cintura. Observava as pessoas circulando pelo Spui, cruzando olhares de desejo e frustração, e teve outra iluminação: a esperança havia recebido do Todo-poderoso sua mais forte cacetada; e este golpe mortal deixara o mundo entregue à opressão. A liberdade fora destruída pela AIDS. O que havia agora no horizonte era puro desespero inconsciente. Aos tolos sentados no Café Luxembourg só restava observar outros tolos observando-os da calçada. O espírito burguês materializara-se numa dimensão inédita: como se o mundo, que deveria explodir, preferisse apodrecer em silêncio.</p>
<p style="text-align:justify;">No dia seguinte, Laura acordou cedo e caminhou até a Königsplein, decidida a tirar o máximo proveito da jornada. Comprou na livraria Scheltema<strong><em> </em></strong>um guia da Amsterdam de Rembrandt: queria viver na pele daquele pintor, passeando pelos locais que marcaram sua vida e obra. Partiu da fascinante casa-museu da Rembrandthuis, e dirigiu-se ao Rijksmuseum para admirar o imenso painel de <em>A ronda da noite</em>. Contudo, gostou mais de um auto-retrato de Rembrandt quando jovem e da tela de um pintor do qual nunca ouvira falar: Karel Dujardin.</p>
<p style="text-align:justify;">Sem entender os critérios que sustentavam a História da Arte, Laura saiu do museu com uma sensação de confusão e de tempo perdido. Fora dos museus, a vida pulsava mais forte. O sol dourava as águas escuras dos canais, o céu tingia-se de lilás e amarelo. Laura pensou: “Eu costumava detestar os crepúsculos e me entristecia quando nada era mais idêntico a si mesmo. Preferia a nitidez do dia ou a cegueira da noite. Angustiava-me quando o entardecer dissolvia as certezas. Aqui e agora passo a gostar dos crepúsculos. Amsterdam deu-me os fins de tarde mais belos de toda minha vida. Aprendi a amar esses momentos, quando as cores são mais reais que as coisas.”</p>
<p style="text-align:justify;">Preferindo cada vez mais a vida ao ar livre, somente semanas mais tarde Laura voltou a pisar num museu. Foi ao Museu Histórico,<strong><em> </em></strong>para uma exposição de conchas trabalhadas como verdadeiras jóias. Ali se encantou com a Sala dos Regentes, o afresco no teto de madeira, o ambiente holandês. Numa rua detrás, descobriu o Begijnhof, um pequeno quarteirão de casas construídas no século XIV, então na periferia da cidade, para uma comunidade de mulheres católicas que cuidavam de doentes e praticavam a caridade – hoje um oásis de calma em pleno centro, alugado a preços módicos a velhas solitárias e jovens estudantes.</p>
<p style="text-align:justify;">Como não tinha o que fazer naquela tarde nublada, Laura enfiou-se em outro museu, o Stedelijk, onde acompanhou, sem interesse, uma exposição sobre a vanguarda russa. Apenas os alegres Kandisnky sobressaíam da mesmice dos quadros abstratos. Depois, na Nieuwe Kerk,<strong><em> </em></strong>viu esculturas tão feias que lhe pareceram profanar o templo. Mesmo assim, admirou a liberdade holandesa que fazia das igrejas espaços para debates e mostras.</p>
<p style="text-align:justify;">Já arrependida de perder seu tempo com a arte moderna, deparou com um pequeno grupo de figuras: camponesas que formavam uma torre com seus corpos para proteger seus filhos, assustados ante uma ameaça invisível. Era a Torre de Mães, de Käthe Kollwitz, uma obra maravilhosa, diante da qual todos os desastres modernos revelavam ter o mesmo valor que a sucata de que eram feitos. Laura apreciou ainda algumas esculturas de Rodin, Kirchner e Giacometti. Nem toda a arte moderna era desprezível, afinal.</p>
<p style="text-align:justify;">Animada com esta descoberta Laura subiu até o alto da Westerkerk, construída em 1631, a maior igreja protestante dos Países Baixos, na qual Rembrandt estava enterrado, e cuja torre possuía um famoso jogo de sinos, elevados através de buracos abertos no estrado de cada andar. Depois de descer da torre, Laura procurou a Sinagoga Portuguesa, mas não conseguiu encontrá-la. Passeou, sem objetivo, ao longo dos canais, admirando os detalhes de cada casa da Herengracht, devorando um lanche num banco da Rembrandtplein, tomando um café com bolo de sorvete na Kalverstraat.</p>
<p style="text-align:justify;">Chegou enfim a Jonas Daniël Meyerplein, e viu o monumento ao Trabalhador das Docas, realizado por Mari Adriessen, em comemoração à greve de 25 de fevereiro de 1941, quando trabalhadores protestaram contra as <em>razzias</em> nazistas contra os judeus. A inscrição da estátua ressaltava a singularidade deste protesto ter ocorrido <em>nesta cidade</em>: “Não em Moscou, não em Varsóvia, mas em Amsterdam, e é pelo que Amsterdam deve ser sempre lembrada”.</p>
<p style="text-align:justify;">Emocionada, Laura seguiu pensativa ao longo do canal. Na noite fresca, as nuvens coalhavam num céu claro, e ela se intoxicava respirando os mosquitinhos que flutuavam no ar. Comprou uma banana numa banca de frutas, que também vendia postais com fotomontagens do Papa nu, mulheres engolindo cobras, batons em forma de pênis, pênis de formas estranhas, vaginas deformadas por anéis, uma mulher copulando com um macaco. De onde saíam essas fantasias monstruosas? Laura teve vontade de jogar fora a banana que comprara, mas estava com fome e foi comê-la longe dali.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim que se encostou à beira do canal, um mendigo postou-se à sua frente, com uma expressão de êxtase, olhando para cima. Com um gesto brusco, Laura desvencilhou-se da aparição e resolveu embriagar-se no Black &amp; White. Já mais alegre, seguiu para o The Cash e terminou a noite no Le Berry. Laura sentia que os músicos das bandas morriam pouco a pouco tocando seus instrumentos. Drogados? Com certeza. Lembrou-se de ir ao Melkweg. Ali, três jovens dançavam na Lijnbaansgracht, entre junkies e mágicos. Laura não tomava drogas. Prezava seu cérebro e não queria alterá-lo de forma alguma. A única “droga” que consumia, sem parar, era o delicioso Fristi, um leite com frutas cheio de corantes, aromas e estabilizadores “naturais”.</p>
<p style="text-align:justify;">Voltando para o hotelzinho na Leidsegracht, sob os eternos miados de um gato, observou novamente, como em todas as noites, o senhor do edifício em frente, que vivia lendo, no conforto de sua biblioteca. Através da janela semi-aberta, Laura voltou a notar o pequeno aeroplano de madeira que pendia do teto e foi tomada de paixão por aquele estranho, por sua vida inteira, que ela construiu mentalmente. Morando ali, ele tinha a visão da Korte Leidsedwarsstraat, com as luminárias exóticas do restaurante chinês. Aquele homem fazia parte de Amsterdam como os canais e as pontes. Ele havia descoberto o segredo da felicidade: parecia satisfeito com seus livros, aquecido em sua poltrona, o aeroplano balançando do teto. Laura sentiu tanta inveja que quis, por maldade, conhecê-lo, esperando ouvir de sua boca a confissão de que não era feliz, e sim doente e solitário, arrastando uma cruz tão pesada que à noite o assaltavam pensamentos de eutanásia. Laura suportaria melhor aquela imagem de felicidade se soubesse que ela não passava de uma imagem.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas não conseguiu enganar-se: aquele solitário era feliz como poucos homens na Terra. Laura tinha que aceitar esta verdade: havia pessoas privilegiadas no mundo, que gozavam de situações privilegiadas; eram profissionalmente privilegiadas e moravam em países privilegiados, em cidades privilegiadas, em casas privilegiadas, com vistas privilegiadas. O privilégio era uma violência que fazia só alguns poucos homens felizes e destinava os restantes bilhões à infelicidade, e isso não podia ser alterado: a destruição do privilégio não faria ninguém feliz, apenas reduziria todos os homens à infelicidade geral. As revoluções estavam destinadas ao fracasso no que tangia à felicidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura procurava sua felicidade num novo amor, mas sua busca era cada vez mais insensata. Só desejava agora certo tipo de homem – um homem que desejasse outros homens, sem ser homossexual. Como aquele jovem loiro, torso nu ao sol. Laura dissolveu-se na contemplação de um Narciso. A cabeleira do rapaz, seus olhos, seus movimentos sensuais a medusavam, e tanto que ela quase foi atropelada por uma bicicleta. O ciclista, um moreno franzino de aparência rude, gritou-lhe pelas costas: “Take the other side! This is a road side!”. O grito despertou-a do transe com o mais profundo ódio dos ciclistas.</p>
<p style="text-align:justify;">“Típico de Amsterdam!”, pensou consigo mesma. Como se fosse possível andar naquelas calçadas estreitas sem maravilhar-se a cada instante com os canais, as fachadas renascentistas e os jovens lindos que circulavam pelas ruas. Já não bastava que os automóveis arruinassem o passeio? Os ciclistas ainda se arrogavam direitos sobre o espaço mínimo que restava aos <em>flâneurs</em>. Monstros! Laura chegou atordoada à Rembrandtplein. Mal pode notar, dentro de um restaurante, que um grupo de pessoas, todas vestidas de negro, sentadas de frente para a calçada, e entre elas um homem gordo, segurando um aparelho, moviam os braços em sua direção.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura não identificara o objeto na mão do homem gordo. Fixou nele seu olhar por um momento e notou que o homem a chamava com gestos, fazendo-a entender que havia ali algum problema que requeria sua atenção. Aproximando-se do grupo, notou que o objeto era um telefone celular. O gordo aproximou o telefone do ouvido de Laura, que se esforçava para entender o que se passava. Subitamente, o homem gordo gritou com toda a força de seus pulmões: “Buuuuuuu!”. Seus companheiros de mesa sorriram constrangidos enquanto o gordo, que pagava a conta, gargalhava sadicamente. Tremendo de raiva, Laura murmurou: “L’idiot! L’idiot!”. Não apenas seu inglês fôra bloqueado pelo susto como não queria revelar àqueles insetos sua verdadeira nacionalidade. Não dirigiu o olhar para o gordo, mas para os insetos menores que o cercavam, como a dizer: “Vocês são ainda piores!”. Amsterdam fora invadida por associais. O sonho de passear por uma cultura viva transformava-se num pesadelo de ruínas humanas. Não era o mundo de Rembrandt que Laura descobria seguindo o seu roteiro: era o mundo de Francis Bacon.</p>
<p style="text-align:justify;">Tudo fora estragado. Como era possível agora sonhar com a velha Amsterdam em meio à gente vulgar que a habitava atualmente? O telefone celular multiplicava a vida dos insetos, dando-lhes forte apoio social, tecnológico, estratégico. E eles se agarravam ao aparelho como a uma tábua de salvação. Para tentar apagar de sua mente a imagem daquela aranha negra dependurada num fone celular, Laura entrou num jornaleiro. Talvez outras imagens pudessem neutralizar o mal-estar que a invadia.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura folheou uma revista de moda. Jamais compraria um vestido de alta costura, vê-los era o bastante. Eram obras de arte, talvez as únicas que o mundo moderno ainda era capaz de produzir&#8230; Deteve-se, porém, num anúncio que exibia o corpo de uma mulher do pescoço até as coxas em um biquíni generoso, com a legenda: “Dreams”. A cabeça da mulher estava cortada da foto, dela via-se apenas o cabelo escorrido e molhado. A garota estava em posição horizontal, de costas, levantando-se da praia, o corpo salpicado de areia. O anúncio prometia ao leitor tornar seus sonhos realidade, através de um serviço pessoal de acompanhantes para jantares, passeios, massagens. Bastava discar, 24 horas por dia, o número 6402666 ou 6402111. Laura deu-se conta, num lampejo, que a Red Light Zone havia se espalhado por toda a cidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Sim, a prostituição tornara-se caseira. Preservativos não eram mais produtos de farmácias e <em>sex shops</em>, mas artigos de consumo encontrados em qualquer supermercado, bar ou discoteca, e até nos banheiros públicos, em máquinas automáticas. Sob o <em>slogan</em> “Sexo seguro ou nenhum sexo”, cartazes com casais heterossexuais ou homossexuais abraçando-se com uma camisa de Vênus na mão decoravam estações de metrô, pontos de ônibus e grandes cruzamentos. O sexo banalizara-se, massificara-se, perdera o sentido.</p>
<p style="text-align:justify;">Vagamente irritada, Laura saiu do jornaleiro sem comprar nada. Foi ao Desmet, na Plantage Middenlaan, numa sessão à meia-noite. Passavam um filme “SM” em preto-e-branco, onde homens de rostos tapados por máscaras de couro negro passavam o tempo se penetrando e se devorando, sem nenhuma carícia, ternura ou imaginação. Laura excitava-se com horror, machucada em seu desejo. Saiu antes do fim, sentindo-se vilipendiada.</p>
<p style="text-align:justify;">Para refazer-se, parou diante da vitrina da pequena loja de antigüidades da Molsteeg. Aqui ela podia refugiar-se por momentos das misérias do sadomasoquismo e de seus próprios pensamentos circulares. Contemplando os sonhos e as fantasias de outro tempo, olvidava as catástrofes da modernidade. O artesanato era uma fonte infinita de alegria. As miniaturas, as bonecas de porcelana, os brinquedos de corda, os livros encadernados, os móveis antigos, os caracóis coloridos e as caixinhas de madeira transportavam-na para o mundo humano onde o sexo ainda estava integrado à realidade, e não havia irrompido na paisagem como um Frankenstein libertado.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura esticou no It, uma de suas boates preferidas. Bebeu <em>gim-fizz</em> olhando os jovens tatuados que freqüentavam o lugar, buscando as aventuras excitantes que a publicidade e a pornografia lhes prometiam. Mas esse mundo era sem aventuras. Tudo já havia sido planejado, estratificado, classificado, nomeado, arquivado. Nada mais havia a ser descoberto, nada mais havia a ser inventado.</p>
<p style="text-align:justify;">No dia seguinte, Laura foi ao Museu Van Gogh. Tendo visitado tantos museus, concentrava agora sua atenção apenas nos quadros que lhe produziam certo êxtase sensual. Surpreendeu-se, contudo, ao emocionar-se com um nada erótico pequeno chapéu de Van Gogh. O que havia nesse quadro? O pintor colocara aí tanta verdade que o resultado transcendia a pintura. Sim, Van Gogh era um caso à parte, não podia ser alinhado entre os modernos, que esvaziavam a arte de toda sensualidade, produzindo meros objetos cerebrais. Por isso Van Gogh atraía os loucos, e seu museu regurgitava de alucinados.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura logo notou uma falsa indiana de cabeça raspada, sandálias e túnica, contemplando os quadros de Van Gogh como se eles lhe transmitissem uma mensagem secreta; noutra sala, um jovem magro, parado diante de um auto-retrato, mas sem propriamente fixá-lo, vagava os olhos perdidos, imensos, dentro das órbitas, como que atingido por uma revelação cósmica que o aterrorizava, e a qual não podia comunicar a ninguém. Era discretamente observado por um guarda do museu.</p>
<p style="text-align:justify;">Em meio às demonstrações forçadas de encantamento dos turistas, despejados ali como parte de uma programação cultural, Laura presenciou um único momento de verdadeira apreciação do belo: uma mulher simples explicava ao filho de três anos, que carregava no colo,<strong> </strong><em>Os comedores de batatas</em>: “Naquela época, os camponeses eram tão pobres que não tinham mais nada para comer além das batatas que plantavam.”. O garotinho olhou então para a tela com atenção, a revelação do amor e da beleza brotando em seu pequeno espírito, que um laço de ternura unira simultaneamente à arte e à vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura intrigou-se com um estudo realizado um mês antes da pintura definitiva. Van Gogh não havia concebido a mulher da esquerda, com seu rosto simpático e esperançoso. Essa figura preenchera um vazio no esboço, composto com apenas quatro comedores de batata. Notou ainda como Van Gogh passara do realismo social de seus quadros trágicos e sombrios de 1885 para o colorido extasiante das paisagens de 1889, nas quais a tinta parecia saltar da tela. Era como se ele não quisesse mais representar as coisas, mas convocá-las para que se deixassem ficar em seus quadros.</p>
<p style="text-align:justify;">Certas pinturas, Laura pensava, tornavam-se célebres apenas por terem sido mais reproduzidas que outras. Depois de sofrer um bombardeio de impressões fiéis ou distorcidas ao longo da vida, o visitante que se postava diante do original no museu tinha logo a sensação de <em>reconhecer</em> o quadro famoso. Essa sensação, que substituía o prazer estético no observador superficial, era forte o bastante para reconfortá-lo naquele universo estranho: “Aqui está algo que me identifica ao meu próprio ato”, supunha o leigo, satisfeito por testemunhar a verdade dos valores que o mundo lhe ditava através de tantos fantasmas. É o que acontecia com os girassóis de Van Gogh. Mas ao ver pela primeira vez uns maravilhosos campos de flores azuis, Laura considerou aqueles quadros muito mais importantes: eles a deslumbravam sem referência prévia. Sim, o mundo ignorava a fonte dos valores.</p>
<p style="text-align:justify;">Tendo lido há muitos anos a correspondência completa de Van Gogh, Laura desenvolvera uma teoria sobre os motivos que o teriam levado a cortar o lóbulo de uma de suas orelhas e enviá-lo a uma prostituta. Van Gogh estaria apaixonado por Gauguin. Queria desesperadamente morar com o amigo e, para recebê-lo, fizera-lhe um quarto azul, reservando para si um quarto rosa, assumindo de bom grado o papel feminino. Mas Gauguin não correspondeu a esse amor e Van Gogh mutilou-se de infelicidade. Agora, Laura podia ver com precisão a cadeira vazia de Gauguin que Van Gogh pintara em 1888, com uma vela acesa junto a dois livros justapostos: não apenas o pênis, mas também os testículos do amigo. Na sua própria cadeira, Van Gogh colocou um cachimbo apagado – seu ânus, desejo ou alma, chamem como quiserem – carente de fogo e calor. Ainda refletindo sobre a paixão de Van Gogh, Laura deparou com <em>Campo de trigo com corvos</em>, o último quadro, pintado em 1890, em Anvers. Depois de ver centenas de reproduções da tela, Laura contemplou, pela primeira vez, suas verdadeiras cores, seus pequenos defeitos, e o poder de evocação desses corvos sinistros, que não passavam de pequenos traços de tinta negra. Invadida pela melancolia no domingo ensolarado, Laura terminou o dia vagando pelas ruelas antigas de Amsterdam.</p>
<p style="text-align:justify;">Dias depois, passando pela livraria da Koningsplein, Laura não resistiu a gastar alguns Gulden, que começavam a escassear em sua bolsa, na deliciosa biografia de Shelley escrita por André Maurois, livro que ela devorou na mesma noite como uma guloseima. Redescobrindo o prazer da leitura, mergulhou n’<em>A confusão dos sentimentos</em>. Passava horas no Café do CREA olhando para o canal e sorvendo Stefan Zweig. Quando chovia, os velhos edifícios renascentistas brilhavam como se fossem de prata. Um chocolate quente adoçava sua boca. Não era o bom chocolate espanhol de seus avôs, mas um medíocre <em>toddy</em> quente, tão quente que lhe queimava a língua. Bastava-lhe, porém, estar ali, cercada por estudantes folheando jornais ou debatendo em melodioso flamengo, para sentir-se viva. Um halo de beleza a envolvia e protegia contra a vulgaridade.</p>
<p style="text-align:justify;">Mais tarde, comendo uma <em>lasagna</em> no Tartufo, Laura pôs-se a imaginar como custava administrar um restaurante. Não era apenas o trabalho de preparar os pratos e servir os clientes; era preciso manter a casa em ordem, comprar as matérias-primas de qualidade a bom preço, limpar o chão, as louças, os talheres, os móveis, as toalhas, controlar os garçons, os cozinheiros, os empregados, os caixas, manter em dia o cardápio, o estoque de bebidas, as despensas, os salários, as contas&#8230; Por isso os bons restaurantes eram raros. Na Rembrandtplein já se perdera há muito a noção do que fosse um bom restaurante. Os restaurantes ali ladeavam <em>porno-shops</em>, pareciam <em>porno-shops</em>, assim como as <em>porno-shops</em> da vizinhança adquiriam um estranho ar de restaurantes. Corria-se o risco de entrar num local iluminado como um motel e ser recebido por um garçom, assim como o de ser levado a uma cabine privada de <em>hardcore </em>quando se queria apenas comer uma pizza.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura cansara-se de seus passeios. Amsterdam decompunha-se à luz do dia. Comprara outros livros num sebo com seus últimos Gulden e agora ficava encerrada no hotel, lendo compulsivamente. A solidão tornava-a irrequieta, suscetível. Ao ler a descrição que Liliane Segal fazia da morte de Jean-Paul Sartre nas últimas páginas de <em>A clandestina</em>, Laura começou a chorar. Foi como se ela descobrisse, somente agora, dez anos depois do fato, que Sartre havia morrido. Laura não conseguia mais parar de chorar. Perdera o controle, e murmurava a si mesma, como se tentasse convencer-se disso: “Sartre morreu! Sartre morreu!”. E quando finalmente se deu conta disso, ficou desesperada. Não suportava a idéia de um mundo sem Sartre. As lágrimas escorriam de seus olhos como as contas de um colar que se arrebentara. O livro despencou de sua mão. Não podia mais ficar no quarto. Levantou-se e foi até o espelho. As lágrimas caíam dentro da pia enquanto ela penteava os longos cabelos negros. Seu rosto transformara-se numa cachoeira. Não parou de chorar enquanto se vestia, calçava os sapatos, ajeitava o pequeno chapéu e o lenço de seda em volta do pescoço. E saiu à rua com o rosto molhado de lágrimas, chorona andando sem destino, chorosa por tudo ao redor, perdida em prantos num mundo <em>dessartriado</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Sempre chorando, Laura entrou no It e sentou-se à primeira mesa, sem perceber que estava ocupada. As lágrimas formavam uma cortina esbranquiçada que lhe turvava a visão. Assustou-se quando uma mão avançou à sua frente, estendendo-lhe algo mole e branco. Quando distinguiu o objeto como um lenço, tomou-o por automatismo e enxugou os olhos. Laura viu então um rapaz de cabelos castanhos e olhos verdes, que a observam por trás de óculos de aros pesados. Aquele rosto parecia-lhe tão familiar que, esquecendo estar em Amsterdam, disse em português: “Obrigada!”. O rapaz sorriu e respondeu: “De nada!”. Que incrível coincidência: era um estudante brasileiro que morava em Den Haag e escrevia uma tese sobre a pintura flamenga! Ele sabia tudo sobre a <em>Torre de Babel</em>. E divertia-se com seus detalhes: “O velho Brueghel pintou até os ratinhos, do tamanho de uma vírgula!”. Sempre que podia vinha a Amsterdam. “E você, que faz aqui? Por que está chorando?”. Mais calma Laura explicou-lhe que chorava pela morte de Sartre, por não encontrar mais sentido na vida, por perceber a liberdade bloqueada pela AIDS, pelas drogas, pela vulgaridade&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Samuel – assim ele se chamava – disse a Laura que o Ser ainda não se esgotara; que alguns mistérios mantinham-se intactos; e que a AIDS, as drogas e a vulgaridade, por mais que se espalhassem, não destruiriam o grande segredo. “Eu mesmo acabei de encontrar meu duplo”, sussurrou a Laura. “Como assim?”, ela quis saber. Samuel explicou-lhe: “Todos nós temos um duplo que percorre o mundo. No meu caso, foi em Den Haag que se deu o encontro. Eu estava no Mauritshuis, contemplando a <em>Lição de anatomia</em>, um quadro mórbido e científico. Mesmo conhecendo a tela por mil reproduções, foi ali, diante do original, que percebi seu sentido. Foi estranho. Era como se eu notasse, pela primeira vez, que Rembrandt pintara o momento mesmo da dissecação: à vista dos alunos, o médico destaca os nervos do braço do cadáver pálido, puxa-os delicadamente com a tesoura, erguendo-os, prestes a cortá-los&#8230; Siderado cambaleei pelo museu, sem olhar para os outros quadros. Depois da <em>Lição de anatomia</em>, o resto me era excessivo. Eu estava devastado. No entanto, ao subir ao segundo andar do museu, onde mãozinhas saem das paredes segurando castiçais, como em <em>La Belle et la Bête</em> – você viu o filme de Jean Cocteau? – deparei com alguém que eu conhecia. Mesmo estando ele de costas, era-me familiar. Quando se virou, vi que era eu mesmo. O outro não percebeu, mas eu o segui por um bom momento, e o vi visitando o museu, descendo a escada, observando a<strong> </strong><em>Lição de anatomia</em>, perdendo quase os sentidos diante do quadro&#8230; Escondi-me atrás de uma coluna enquanto ele saía do museu. Sim, deixei-o seguir seu caminho, sabendo que ele não se encontraria mais comigo. Você acha que eu deveria tê-lo abordado? Mas o que eu poderia dizer a mim mesmo que eu já não soubesse? Você duvida, mas esses encontros podem acontecer a qualquer um, isto é, a qualquer um que tenha viajado tanto quanto eu. Quando alguém dá, mais de uma vez, a volta ao mundo, corre o risco de encontrar-se com seu duplo.”.</p>
<p style="text-align:justify;">Laura não acreditou na história de Samuel. Fixou com desconfiança os olhos no jovem doce e risonho, que parecia manter-se distante das coisas, a um passo da realidade. Sentiu grande ternura por ele. “Esse jovem é puro pensamento”, Laura intuiu, enquanto lágrimas renitentes insistiam em correr sobre seu rosto. Imagens da fuga que empreendera sucederam em sua mente como num caleidoscópio: Vinícius largado na cama, as caixas de música em Utrecht, os silêncios enigmáticos de Franz, o homem gordo dependurado no celular, o solitário feliz em sua biblioteca, os loucos do Museu Van Gogh&#8230; Algo desmoronava dentro de Laura: as imagens de seu passado pareciam-lhe ocas, como se fizessem parte do passado de outra pessoa.</p>
<p style="text-align:justify;">Samuel voltou a falar. Expôs com vigor sua filosofia da arte, resumindo-lhe o imenso tratado de estética que estava escrevendo. O rosto do rapaz ficou rosado de tanta emoção. Havia grande sentido no que ele dizia, uma paixão pelas idéias como Laura nunca vira antes, lógica e poesia nelas se entrelaçavam, fazendo suas lágrimas secarem de todo. Ela estava diante de alguém que acreditava na razão e que, fiel ao próprio pensamento, vivia-o plenamente, sem deixar que a realidade o contaminasse. “Se a mente desse jovem conseguiu sobreviver pura e intacta à vulgaridade deste mundo, nem tudo foi estragado”, pensou Laura, voltando a sorrir. Depois de tantas buscas, de tantas decepções, ela de repente descobriu porque tinha estado perdida. No It, junto ao jovem desconhecido que já se tornara seu cúmplice, Laura encontrou uma nova estrela para guiá-la nas últimas noites que passou em Amsterdam.</p>
<p style="text-align:justify;">[Imagem: <em>Noite estrelada sobre o Ródano</em>, de Van Gogh.]</p>
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